
A sexta-feira (14) terminou indigesta para a prefeita de Piripiri, Jôve Oliveira (PT), e para o vice Hilton Martins Osório: ambos tiveram seus mandatos cassados pelo juiz da 11ª Zona Eleitoral. Motivo? Segundo a Justiça Eleitoral, um esquema estruturado dentro da própria prefeitura para usar rádios, TVs e toda a máquina pública como trampolim de autopromoção, um luxo de comunicação institucional que, na prática, se transformou em publicidade eleitoral disfarçada. Nada modesto, diga-se.
A sentença descreve o que chamou de um “robusto esquema de comunicação”, sustentado por contratos públicos que, em vez de informar a população, miravam na construção de uma imagem eleitoral irresistível da prefeita. Entrevistas semanais, quadros fixos, reportagens laudatórias, exposição permanente da autoridade municipal… Tudo isso embalado com dinheiro do contribuinte e repetido à exaustão, garantindo à gestora uma vitrine quase diária em pleno período eleitoral. Forte demais para passar despercebido — e fraco demais para resistir ao crivo do Tribunal de Contas e da Polícia Federal, que reforçaram as provas do desvio de finalidade.
O magistrado José Eduardo Couto de Oliveira foi direto ao ponto: em uma cidade do porte de Piripiri, tamanha presença da gestora nos meios contratados gera vantagem eleitoral óbvia, amplia o capital simbólico e desequilibra o jogo democrático. Não por acaso, além da cassação, veio o combo completo: oito anos de inelegibilidade e a determinação de novas eleições após o trânsito em julgado. Um terremoto político em pleno coração do quarto maior colégio eleitoral do Piauí.
Mas, enquanto o processo não chega ao fim, a realidade é outra: Jôve segue prefeita e Hilton segue vice. E Jôve tratou de se pronunciar ainda na noite da decisão. Em tom de indignação calculada, afirmou que recorrerá “imediatamente” e que o TRE corrigirá “o equívoco”. Negou qualquer abuso, reafirmou a lisura da campanha e avaliou sua vitória, com mais de 27 mil votos, como fruto exclusivo do reconhecimento popular. Faltou apenas combinar com o juiz.
O processo que a derrubou é uma AIJE apresentada pela coligação de oposição “União, Amor e Trabalho por Piripiri”, formada por seis partidos. E, ao que tudo indica, a briga jurídica está só começando. Resta saber se o volume de provas considerado “robusto” pela Justiça vai resistir à narrativa de perseguição política que a prefeita já começou a montar.
O chamado “crime eleitoral” atribuído à prefeita Jôve Oliveira está longe de ser uma excentricidade política exclusiva de Piripiri. A verdade incômoda — que todo mundo conhece, mas quase ninguém verbaliza — é que a mesma estratégia de comunicação personalista se repete, com poucas variações, nos 224 municípios do Piauí. Prefeitos transformam a publicidade institucional em extensão do próprio ego, rádios viram porta-vozes oficiosas das gestões e TVs exibem gestores como se fossem protagonistas de um reality show permanente. E, se formos sinceros, nada disso se compara à engrenagem de comunicação do governo do Estado, onde o governador Rafael Fonteles desfila com status de quase “pop star”, estrela de campanhas institucionalmente pagas, mas politicamente orientadas, e ainda turbinadas por um exército de blogueiros e influenciadores que orbitam a gestão sob o manto da “divulgação oficial”.
Cassar Jôve Oliveira — que, ironicamente, é comunicadora por profissão — por esse modelo de exposição oficial travestido de publicidade institucional é, portanto, abrir uma porta que talvez muita gente do alto escalão não queira atravessar. Porque, se essa jurisprudência prosperar, não faltará gestor no Piauí para sentar no banco dos réus por exatamente a mesma prática. E aí a Justiça Eleitoral terá de explicar por que uns são punidos e outros, igualmente devotos do culto à própria imagem, seguem posando para as câmeras como se nada estivesse acontecendo.
Uma coisa, porém, é certa: Piripiri ainda vai assistir a muitos capítulos desse enredo — e, como sempre, os bastidores prometem ser mais barulhentos que o noticiário oficial.
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