
O projeto de lei Antifacção, que deveria representar uma resposta firme ao avanço das organizações criminosas no Brasil, está se transformando em mais um retrato da fragilidade política nacional.
O relator, deputado Guilherme Derrite (PP-SP), já vai para a terceira versão do relatório — e o apelido nos corredores de Brasília não poderia ser mais simbólico: “a colcha de retalhos”.
O que era para ser um documento incisivo e histórico, capaz de classificar as facções como grupos terroristas, virou um amontoado de concessões, cortes e remendos.
A cada reunião, a cada “alerta” vindo do Planalto, do Judiciário ou do tal “mercado”, o texto original vai derretendo.
A grande pergunta é: por que o relator recua tanto?
Derrite, ex-policial e conhecedor da realidade das ruas, sabe melhor do que ninguém que sem a tipificação das facções como terrorismo doméstico, o país continuará enxugando gelo.
Mas o recuo veio — e rápido.
Nos bastidores, fala-se em pressões múltiplas.
Do governo federal, que teme o impacto político de um endurecimento penal em pleno momento de fragilidade da segurança pública.
Do Judiciário, que não quer ver novas brechas de conflito entre Justiça comum e militar.
E até do mercado financeiro, que teme a desestabilização de setores inteiros (como o de transportes e combustíveis) infiltrados por facções.
Sim — o “mercado” que não se escandaliza com o narcotráfico ou com a lavagem de bilhões em esquemas, mas treme diante da simples palavra terrorismo.
O episódio expõe algo mais profundo: o medo estrutural do Estado brasileiro de enfrentar o crime organizado de verdade.
Quando o inimigo se mistura ao sistema, o combate deixa de ser técnico e passa a ser político.
E Derrite parece estar aprendendo isso na prática — e sob forte pressão.
Deputados da oposição denunciam o esvaziamento do relatório e dizem que, sem a definição de facção como terrorismo, “as polícias vão continuar enxugando gelo”.
Enquanto isso, o Ministério da Justiça, por meio do secretário-executivo Manoel Carlos de Almeida Neto (o número dois de Ricardo Lewandowski), articula o retorno ao texto original do governo, mais ameno, menos conflitivo e — convenhamos — mais conveniente para quem prefere o status quo.
O relatório de Derrite é o retrato perfeito da política brasileira: começa duro, termina maleável; nasce com convicção, morre com negociação.
Cada emenda é um ponto a mais no tecido frouxo da conciliação.
Cada retirada de artigo é uma vitória da covardia institucional sobre o dever moral de enfrentar o crime.
Enquanto o país afunda em domínios territoriais de facções, corrupção em órgãos públicos e medo nas ruas, o texto que deveria ser o divisor de águas se transforma em um documento de conveniências.
Derrite, o policial que entrou no Congresso prometendo enfrentar o crime, hoje precisa decidir se quer ser lembrado como o relator que lutou ou como o que derreteu.
E é aqui que a provocação se impõe:
Por que tanta resistência em tratar o crime organizado como terrorismo interno?
Por que tanto cuidado em “não cutucar onça com vara curta”, quando essa mesma onça já devora o Estado por dentro?
O que, afinal, assusta mais — as facções, ou o que será revelado se alguém realmente as enfrentar?
A resposta, como sempre em Brasília, parece estar menos na lei e mais nas sombras.
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