
Falo com tristeza, quase como quem lamenta a morte de um velho amigo. Ver a BBC a lendária emissora britânica que sempre foi sinônimo de credibilidade e jornalismo de excelência, afundar em escândalos éticos é mais que uma notícia: é um sintoma da decadência moral que tomou conta da imprensa mundial. Deborah Turness, diretora-executiva da BBC News, e Tim Davie, diretor-geral da corporação, renunciaram depois de acusações de manipulação e viés político nas coberturas. A gota d’água veio quando o canal editou falas do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de forma que pareciam incitar violência, um erro que, em qualquer redação séria, seria inaceitável.
Deborah Turness tentou defender a casa, dizendo que “a BBC não tem parcialidade institucional” e que seus jornalistas “não são corruptos”. Mas o estrago estava feito. Um relatório interno revelou que a emissora vinha errando feio em temas delicados como a guerra entre Israel e Hamas e questões de gênero. Pior: parte das reportagens era conduzida por pessoas com vínculos políticos diretos, como o filho de um ministro do Hamas narrando um programa sobre Gaza. Para uma empresa financiada com dinheiro público, que se vende como padrão de imparcialidade, isso é simplesmente devastador.
O caso da BBC não é isolado. É o retrato de uma doença que vem corroendo o jornalismo moderno e que também atinge o Brasil em cheio, inclusive, não é a primeira vez que falo disso aqui na minha coluna Painel Global. O repórter virou militante, o editor virou juiz, e a notícia virou sermão. Em muitas redações, a verdade passou a ser moldada conforme a pauta ideológica. O jornalista que ousa pensar diferente é cancelado, enquanto os que seguem o “consenso” são exaltados. O resultado é uma imprensa cada vez mais desconectada do povo, mais preocupada em doutrinar do que em informar.
Pesquisas confirmam o que o público já sente na pele. Segundo o Reuters Institute, 77% dos jornalistas no Reino Unido se declaram de esquerda. No Brasil, um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina aponta que o número passa de 80%. Essa hegemonia cria um filtro invisível, que define o que pode e o que não pode ser dito. Questões como religião, economia, segurança ou política internacional são tratadas com o mesmo viés moralista como se o jornalismo tivesse virado uma cruzada.
Quando até gigantes como a BBC tropeçam na própria arrogância, é sinal de que algo está muito errado. O jornalismo nasceu para servir à verdade, não a partidos ou causas. E, se ele perde esse propósito, perde tudo. Não é exagero dizer que uma sociedade sem uma imprensa honesta é como um corpo sem sistema nervoso: perde a capacidade de sentir e reagir. Ainda há tempo de salvar a profissão, mas só se tivermos coragem de olhar para dentro e admitir que o vírus da corrupção ideológica já infectou até quem se julgava imune (e deveria ser).
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