
O ministro Gilmar Mendes já afirmou, em pleno auge da Operação Lava Jato, que o Brasil vivia uma “cleptocracia”. A palavra, difícil para alguns, mas precisa para muitos, significa literalmente o “governo dos ladrões”: um sistema no qual os líderes usam o poder público para enriquecer, desviar recursos e manipular instituições em benefício próprio. Curioso é que o próprio Gilmar, anos depois, mudou de opinião — abandonou o discurso anticorrupção, passou a atacar a Lava Jato e hoje integra o círculo de garantistas que orbitam o governo Lula 3.
Mas a pergunta é: a cleptocracia acabou? Ou apenas trocou de roupa e aprendeu a disfarçar melhor? Basta olhar o que está sendo revelado pela CPMI do INSS para perceber que o diagnóstico de Gilmar ainda faz sentido. O escândalo que envolve o Instituto responsável por proteger aposentados e pensionistas se desenha como mais um capítulo vergonhoso de um país que parece nunca aprender com os próprios crimes.
De acordo com as investigações, foi instalada dentro do Instituto Nacional do Seguro Social uma verdadeira organização criminosa, com métodos, hierarquia e divisão de lucros dignos das facções mais lucrativas do planeta. O esquema, segundo o relator da CPMI, beneficiava desde pequenos intermediários até diretores, sindicatos, associações e figuras de alto escalão do poder público. O resultado: milhares de aposentados e pensionistas lesados e milhões de reais desviados do erário.
O relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL) — ex-procurador de Justiça e ex-secretário de Segurança de Alagoas —, foi direto ao ponto: “Se o Careca do INSS abrir a boca, a República cai”. A frase não é apenas uma hipérbole política; é um grito de alerta. Significa que o esquema pode ter ramificações que alcançam ministros, dirigentes partidários e até pessoas do entorno da Presidência da República.
Em entrevista ao jornalista Magno Martins, Gaspar reforçou: “Ouça o que eu digo, ele não falou nada na CPMI, até porque se falasse não sobraria pedra sobre pedra”. A contundência da fala traduz o tamanho da bomba-relógio que repousa nas celas da Papuda, onde o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o famoso “Careca do INSS”, cumpre ordem judicial determinada pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.
O “Careca”, segundo relatos de bastidores, seria o elo entre políticos, empresários, servidores e sindicatos. Um operador experiente, capaz de articular contratos fraudulentos, manipular dados e “lubrificar” engrenagens burocráticas com propinas milionárias. A transferência dele para o Complexo Penitenciário da Papuda acendeu o sinal de alerta: o medo de que ele fale — e revele demais.
A cada nova sessão da CPMI, surgem novos indícios de um sistema de corrupção enraizado e protegido por camadas de impunidade. As investigações já apontam conexões com empresas fantasmas, servidores fantasmas e contratos superfaturados. É um retrato cruel de um Estado que parece funcionar não para o cidadão, mas contra ele.
Enquanto isso, os discursos moralistas e as promessas de “nova política” evaporam diante da realidade. O governo finge surpresa, o Congresso se cala e os órgãos de controle seguem cautelosos demais para não desagradar quem detém o poder. E a sociedade, anestesiada, observa mais um escândalo se arrastar pelas manchetes até cair no esquecimento.
O que o caso do INSS mostra é que a cleptocracia nunca foi embora. Ela apenas se adaptou. Mudou os rostos, modernizou os esquemas, digitalizou as fraudes e aprendeu a operar de terno e gravata, em gabinetes climatizados e com respaldo jurídico. Talvez Gilmar Mendes estivesse mais certo do que imaginava. O Brasil continua sendo governado por ladrões — a diferença é que agora eles têm crachá, cargo comissionado e discurso de ética na ponta da língua.
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