
Recentemente, conversando com amigos que têm filhos entre 16 e 18 anos, ouvi algo que me surpreendeu — e confesso, me inquietou: talvez muitos pais começam a considerar a faculdade como algo desnecessário. A ideia é simples e até sedutora: “o mundo mudou, o importante é empreender agora, começar cedo, fazer acontecer”, pesquisando encontrei que em 2023 fontes do IBGE já mostram que o empreendedorismo jovem está crescendo com pessoas de 18 a 29 anos representando 16,5% dos cerca de 30 milhões de empreendedores no país.
Não sei quantos casos de sucesso esses pais têm como referência, mas desconfio que, em muitos deles, o próprio exemplo familiar é o motor dessa crença. São pais que venceram “na raça”, que construíram negócios sólidos com esforço e coragem, muitas vezes sem diploma. Isso merece respeito. Mas desconsiderar o impacto do estudo — especialmente no cenário de complexidade, tecnologia e transformações sociais que vivemos — é, para mim, um erro estratégico e humano.
Empreender na raça tem seu valor, empreender em si é mesmo uma aventura admirável, mas exige o famoso couro grosso. O estudo é uma das formas mais poderosas de construir alicerce. Ele amplia horizontes, afina o discernimento e fortalece o caráter. Em tempos em que a pressa virou virtude e a reflexão parece luxo, estudar é um ato de humildade — um reconhecimento de que ainda há o que aprender, que não sabemos tudo, e que o conhecimento pode nos poupar de muitos erros evitáveis.
Eu amo estudar. E acredito que, quando há condições de empreender e estudar, esse é o caminho que leva mais longe. O trabalho cedo traz maturidade, responsabilidade e senso de propósito. Conheço pessoas que começaram aos 14 anos ajudando os pais e, com o tempo, se tornaram empresários exemplares. Mas, nesses casos, havia algo fundamental: um legado, uma mentoria, um método, mesmo que não fosse lá muito estruturado. Esses jovens pagaram um preço alto.
Quero destacar aqui que empreender sem preparo é como tentar construir uma casa sem planta — você até pode levantar paredes, mas dificilmente terá estrutura para enfrentar tempestades. Raros os que começam com tudo pronto, o início é pequeno e pode vir acompanhado de muitos dedos apontados, desdém e desacreditação.
Jesus, no Evangelho de Mateus (7,24-25), fez uma analogia similar ao falar sobre quem constrói sobre a rocha: “Aquele que ouve estas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha.” Estudar é, de certo modo, preparar o terreno, fortalecer os fundamentos antes de erguer o edifício da vida profissional.
O empresário Lázaro do Carmo, em seu livro O que importa é o seu resultado, compartilha um episódio marcante com Silvio Santos. Ele conta que, certa vez, Silvio lhe disse que só seguiu aquele caminho por falta de opções enquando Lázaro entendia que por ter opções poderia escolher o seu caminho.
Essa passagem é poderosa. Ela revela que, enquanto alguns empreendem por necessidade, outros o fazem por escolha — e que o estudo oferece justamente isso: a liberdade de escolher o seu difícil. Empreender exige coragem, disciplina e, sobretudo, resiliência extrema. Não é um atalho, é um caminho cheio de aprendizados e provações.
Por isso, o estudo não é um obstáculo ao empreendedorismo; é um reforço espiritual e estratégico para quem deseja empreender com consciência, sem se perder na pressa ou no desespero de “dar certo”, e ressalvo, quem está no caminho sabe as turbulências que enfrentamos. Empreender não é apenas “ganhar dinheiro”, é servir, resolver problemas, gerar impacto positivo. E para servir bem, é preciso compreender o mundo, entender pessoas, desenvolver empatia — e isso o estudo ajuda a cultivar.
Por isso, quando vejo jovens desistindo de estudar para “acelerar a vida”, penso que talvez estejam confundindo pressa com propósito. A pressa quer resultados imediatos; o propósito busca resultados sustentáveis. E o estudo — formal ou autodidata, acadêmico ou técnico — é um instrumento de lapidação pessoal e espiritual. Há uma análise que traz que o índice de sobrevivência dos empreendimentos dos jovens é menor — por exemplo, entre MEIs até 29 anos a taxa de continuidade no 5.º ano é de 41,3%.
O mundo precisa de jovens empreendedores, criativos e ousados. Mas também precisa de jovens sábios, éticos e emocionalmente maduros. O alerta também é para aqueles que no Brasil não estudam e nem trabalham, (a taxa de jovens de 18 a 24 anos que não estudam nem trabalham (“NEET”) está muito alta — segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 31,1% em 2021 nessa faixa etária). A combinação ideal não está em escolher entre faculdade ou negócio, mas em escolher o aprendizado contínuo — em qualquer caminho que seguir!
Empreender sem estudo é como plantar sem preparar o solo. Estudar sem agir é como preparar o terreno e nunca semear. O equilíbrio está em unir ambos: conhecimento e prática, teoria e vivência, cabeça e coração. Afinal, como ensina o Evangelho, “é pelos frutos que se reconhece a árvore” (Mt 7,16). Que nossos jovens produzam frutos sólidos — de sabedoria, caráter e propósito — porque escolheram construir sobre bases firmes.
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