
"Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço." Essa máxima, que cai como luva para o cidadão comum que vive de contradições, parece ter sido elevada à categoria de filosofia de vida pelo ministro Alexandre de Moraes. O guardião da Constituição, incansável perseguidor dos que considera inimigos da democracia, mostra-se incapaz de lidar com o mais elementar dos princípios: coerência.
A cena beira o surreal. Moraes manda citar por edital o deputado Eduardo Bolsonaro, exilado nos Estados Unidos, acusando-o de fugir da Justiça brasileira. Um gesto teatral, acompanhado da habitual retórica de guardião inflexível da ordem. Mas, do outro lado do balcão, surge uma ironia que só a realidade pode produzir: o próprio ministro estaria, segundo acusações do advogado norte-americano Martin de Luca, há sete meses se esquivando de notificações judiciais da Justiça da Flórida.
De Luca, que representa ninguém menos que a Trump Media e a plataforma Rumble, não poupou palavras: chamou Moraes de “incrivelmente descarado” por acusar Eduardo Bolsonaro de conduta idêntica àquela que ele mesmo pratica. Em bom português: o ministro se irrita ao ver no outro o espelho do que faz. O problema é que, no caso, o reflexo não é apenas incômodo — é escandaloso.
Enquanto posa de paladino contra os que “fugiriam da Justiça”, Moraes seria acusado de usar o prestígio e o peso do cargo para atrasar ou até impedir sua própria citação no exterior. A acusação de que o ministro pressiona o Superior Tribunal de Justiça para engavetar a carta rogatória é ainda mais explosiva: um juiz que deveria zelar pela lei estaria usando da máquina estatal para escapar dela.
Se Eduardo Bolsonaro “dificulta a notificação” e merece reprimenda pública, o que merece Alexandre de Moraes, que adota a mesma prática em solo estrangeiro? Talvez o ministro se ache imune à regra que aplica com mão de ferro aos demais. Talvez tenha incorporado a ideia de que, como juiz supremo, pode também ser supremo em sua incoerência. O fato é que, entre o discurso e a prática, Moraes expõe um abismo que mina qualquer discurso sobre justiça, equilíbrio ou democracia.
No fim, resta a pergunta incômoda: se até o juiz que se proclama guardião maior da legalidade joga tão abertamente com dois pesos e duas medidas, que moral sobra para acusar, julgar e condenar? Moraes pode até seguir se esquivando das citações americanas, mas não escapará da pecha de incoerente — e do julgamento da história.
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