
Esta semana, o Brasil foi sacudido pela aprovação da polêmica PEC das Prerrogativas, apelidada de PEC da Blindagem. Uma proposta que dividiu opiniões no país, mas que no Piauí produziu um efeito inusitado: unanimidade absoluta entre os dez deputados federais. Todos, sem exceção, votaram “sim”. Em Brasília, onde divergências são regra, a unanimidade sempre desperta desconfiança.
No estado, o impacto foi imediato no meio político e empresarial. Mais do que a aprovação em si, o que chamou a atenção foram os discursos de “Madalenas arrependidas” que surgiram após o voto. Parlamentares de diferentes partidos, sobretudo da esquerda, correram para as redes sociais tentando explicar o inexplicável. O caso do deputado Merlong Solano (PT) é emblemático: sua justificativa soou tão desastrosa quanto o próprio voto.
Mas afinal, por que essa PEC causa tanto alvoroço? O que ela muda de fato? Na prática, a proposta revive o escudo parlamentar que existiu entre 1988 e 2001, período em que 253 investigações contra deputados e senadores foram arquivadas — apenas uma seguiu adiante. É o retorno da blindagem quase total diante da Justiça.
Pelo texto aprovado, parlamentares só poderão ser processados com aval da própria Casa. Prisões, salvo em flagrante, dependerão de autorização política. Medidas cautelares, como afastamento do cargo, também precisarão de chancela do Congresso. E mais: o foro privilegiado se estende a presidentes de partidos nacionais, mesmo sem mandato eletivo. Um prato cheio para a impunidade.
Defensores da PEC alegam que se trata de reação necessária à chamada “Ditadura da Toga”, expressão usada para criticar o protagonismo e o ativismo do Supremo Tribunal Federal. Episódios como a prisão de Daniel Silveira, a inelegibilidade de Jair Bolsonaro e o avanço de inquéritos das fake news serviram de combustível para esse discurso.
O problema é que o remédio parece pior que a doença. Se há excessos do Judiciário, eles devem ser enfrentados por meio de reformas claras, limites constitucionais e diálogo entre os Poderes. Blindar o Congresso contra a Justiça é, no fundo, institucionalizar a impunidade. É permitir que investigados por corrupção, lavagem de dinheiro e até crimes graves possam se esconder atrás do voto da própria corporação.
O Piauí, nesse contexto, deu uma lição indigesta: quando se trata de autopreservação, não existe oposição, situação, esquerda ou direita. Todos se juntam. A unanimidade da bancada não foi pelo povo, mas por eles mesmos. A foto oficial pode até mostrar união, mas o retrato real é de uma classe política que, em vez de prestar contas, fecha fileiras para escapar delas.
Em suma, a PEC da Blindagem não traz equilíbrio, mas retrocesso. Ao invés de fortalecer a democracia, cria terreno fértil para o crime organizado se infiltrar ainda mais na política. E a sociedade, mais uma vez, fica do lado de fora, assistindo a um pacto de silêncio que ameaça corroer a confiança nas instituições.
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