
É certo que o governo aposta pesado em programas sociais para tentar melhorar seu desempenho e reconquistar os corações, especialmente dos mais pobres. O “Gás do Povo” — programa que fornece botijão de gás gratuito para 15,5 milhões de famílias — é a estrela da vez. O ministro Alexandre Silveira prometeu que até março de 2026 todos os beneficiários serão atendidos.
Mas há um grande porém: mesmo entre os segmentos mais impactados pelas políticas sociais, a melhora de popularidade é fraca ou quase invisível. Uma análise recente mostrou que entre quem ganha até dois salários mínimos, a aprovação caiu cinco pontos desde abril de 2023, enquanto a desaprovação subiu 19 pontos no mesmo grupo. E nas faixas de renda maiores, de dois a cinco salários e acima disso, a queda é ainda mais marcante.
A percepção de que tudo está “pior do que o esperado” avançou: passou de 45% em agosto para 50% em setembro. Ou seja, metade da população sente que o governo decepcionou ou falhou em entregar o que prometeu.
Também há rejeição crescente ao cenário econômico: 48% dos entrevistados afirmam que a economia piorou nos últimos 12 meses, e 72% dizem que seu poder de compra é menor do que há um ano. A inflação, especialmente dos alimentos, segue como fantasma que corrói o orçamento doméstico.
Por que o “Gás do Povo” e programas semelhantes não têm tido impacto político visível?
Primeiro, timing: as medidas surgem muitas vezes como reagir à crise, não como parte de uma narrativa de crescimento e esperança.
Segundo, credibilidade: muitos brasileiros duvidam se os programas serão executados como anunciado ou se haverá descontinuidade, falhas e corrupção. Programas sociais sempre foram parte da política brasileira, o diferencial está na capacidade de entregar sem erro.
Terceiro, a percepção de que Lula “perdeu a conexão com o povo” permanece alta (cerca de 61% dizem isso), mesmo enquanto sua base social aparece levemente favorável.
O fato de que, mesmo com um programa ambicioso como o Gás do Povo e com promessa de atendimento até março, a aprovação não sobe, e a desaprovação não cai, mostra que estamos diante de algo mais profundo do que “erro de comunicação” ou “falta de articulação”. Trata-se de uma crise de expectativa política — a população espera ver mudança, mas sente que nada muda de fato em sua vida.
Em resumo: Lula 3 está apostando em políticas sociais e programas simbólicos para tentar recuperar moral e votos. Mas sobrevive cercado por índices estáveis de rejeição, críticas econômicas reais, desconfiança sobre execução e promessas, e uma percepção de envelhecimento do discurso. Se quiser virar, o jogo vai exigir mais do que gás, vai exigir comprovação de transformação — não só nos discursos, mas nos bolsos.
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