
A prisão de Alessandra Moja Cunha, irmã de Leonardo Moja, o “Léo do Moinho” — apontado como líder do PCC na região central de São Paulo — trouxe à tona um escândalo político que expõe, mais uma vez, a fragilidade da fronteira entre governo e criminalidade no Brasil.
A operação Sharpe, deflagrada pelo MPSP em parceria com as polícias Civil e Militar, não apenas desmontou parte da engrenagem do tráfico na Favela do Moinho, como também revelou uma contradição gritante: a mesma mulher que negociou a visita do presidente Lula à comunidade, e que apareceu ao lado dele no palanque em junho, agora é levada algemada como integrante de uma facção criminosa.
Não é o primeiro episódio que coloca em xeque a conduta do governo federal na relação com criminosos. Basta lembrar quando Flávio Dino, então ministro da Justiça, entrou em uma favela dominada pelo Comando Vermelho, ou quando a chamada “dama do tráfico de Manaus” posou em Brasília ao lado de lideranças políticas da esquerda, inclusive Guilherme Boulos, com despesas pagas pelo próprio governo federal.
Esses episódios, somados à presença de Alessandra no palanque presidencial, configuram não apenas uma sucessão de erros de cálculo político, mas algo mais grave: uma proximidade que beira à normalização da promiscuidade entre Estado e crime organizado.
O mais estarrecedor é que, segundo revelações, o Palácio do Planalto se reuniu oficialmente com Alessandra Moja em junho, durante a organização da visita presidencial. Como o governo não sabia quem ela era? Ou pior: será que sabia e preferiu ignorar?
A defesa de que se trata de “falhas pontuais” já não se sustenta. Quando lideranças do crime ocupam espaços oficiais, sentam-se em mesas de negociação e sobem em palanques ao lado do presidente da República, não estamos mais diante de um acidente de percurso, mas de um sintoma estrutural de conivência ou negligência política.
O marketing do governo, por sua vez, mostra-se desastroso. A visita à Favela do Moinho, que deveria simbolizar aproximação social e empatia, transformou-se em um tiro no pé político, manchado pela presença de uma criminosa como mediadora da agenda presidencial.
Agora, com Alessandra presa, tenta-se passar a impressão de que o Estado agiu. Mas a pergunta permanece: só perceberam quem era Alessandra depois que sua foto ao lado de Lula viralizou? Ou será que o cálculo político foi mais forte do que a prudência institucional?
Enquanto isso, o crime organizado segue exercendo poder em comunidades inteiras, negociando com governos, ocupando espaços de decisão e se fortalecendo sob a sombra da omissão — ou da conveniência política.
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