
Há exatamente um ano, o deputado Alfredo Gaspar (União/AL), atual relator da CPMI que investiga fraudes contra aposentados do INSS, denunciava às autoridades policiais a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis em Alagoas. À época, as declarações do parlamentar — que é promotor de Justiça de carreira — não receberam a devida atenção. Hoje, a gravidade da denúncia se confirma: investigações do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Federal revelam que a facção já controla mais de mil postos de combustíveis em diversos Estados, movimentando bilhões de reais.
Mas o problema não se limita ao combustível. Informações apuradas pela imprensa e autoridades apontam que o crime organizado estaria expandindo seus tentáculos para outros setores estratégicos da economia, como transporte coletivo e serviços de internet. A lógica é a mesma: criar negócios de aparência legal, abastecidos por recursos ilícitos, para lavar dinheiro e ampliar o poder econômico e territorial das facções.
As declarações de Alfredo Gaspar escancaram dois pontos cruciais: primeiro, que o tema já era de conhecimento público há um ano; segundo, que nenhuma providência efetiva foi tomada pelas autoridades federais naquele momento. Nesse intervalo, os esquemas criminosos não apenas prosperaram como alcançaram o que o próprio deputado classifica como uma infiltração “mafiosa” no coração financeiro do país.
O risco de o Brasil se tornar um narcoestado deixa de ser apenas retórico diante dos números: facções controlam o comércio de drogas no atacado e no varejo, dominam cadeias prisionais em todo o território nacional, financiam campanhas eleitorais em câmaras municipais e influenciam diretamente a vida de milhões de brasileiros. Em discurso recente, até o presidente da República admitiu que o narcotráfico já se infiltrou em diversos setores da sociedade.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou em 9 de junho, passado, em discurso na sede da Interpol, na França, que o crime organizado já está presente “na política, no Judiciário, no futebol e em diversos setores da cultura”.
Mas o que Lula e seu governo fizerampara combater os crime organizado?
Gaspar cobra a instalação imediata da CPI do Crime Organizado, proposta de sua autoria e que depende apenas de decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta. Paralelamente, o deputado defende um projeto de lei que cria instrumentos mais eficazes para combater crimes transnacionais, iniciativa que já tramita no Senado.
“O PCC e o Comando Vermelho não são apenas facções, são máfias. O Estado precisa reagir com a mesma seriedade que Itália e EUA reagiram contra organizações mafiosas”, afirma o relator.
A questão que se impõe agora é: ainda há tempo para conter o avanço das facções criminosas no Brasil? A resposta depende da articulação entre Congresso, Judiciário e forças de segurança. O país se encontra em um ponto crítico: ou adota uma política firme de enfrentamento, ou corre o risco de consolidar um modelo em que o crime organizado se torna parte estrutural da economia e da política nacional.
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