
A disputa política em torno da Operação Carbono Oculto — deflagrada para desmontar um esquema bilionário de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) — expôs mais uma vez a tentação dos governos de “batizar” para si vitórias que não lhes pertencem por inteiro. De um lado, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), exalta o papel do Ministério Público de São Paulo (MP/SP) e do seu braço especializado, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado). De outro, o governo Lula, por meio do ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, tenta carimbar como federal a façanha, destacando o envolvimento da Receita Federal e da Polícia Federal.
Mas afinal, quem é o verdadeiro “pai da criança”?
A resposta incomoda Brasília: a investigação nasceu em São Paulo, conduzida pelo Gaeco/SP em parceria com a Polícia Civil e o Ministério Público Estadual. O esquema foi detectado a partir do setor de combustíveis, onde a facção criminosa já havia fincado raízes profundas, controlando postos, distribuidoras, importadoras e até fundos de investimento.
O crime organizado não se limita mais a favelas, presídios ou fronteiras de tráfico de drogas: ele se entranhou na economia formal, abrindo CNPJs, movimentando bilhões e competindo de forma desleal com empresas regulares.
A partir dessa descoberta, a rede de investigação se expandiu para outros Estados, com a adesão da Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público Federal. O apoio da União foi essencial para dar musculatura e capilaridade à ofensiva, mas não foi o ponto de partida.
O Carbono Oculto mostrou aquilo que empresários sérios já denunciam há anos: o PCC se converteu numa espécie de multinacional do crime, infiltrada em setores estratégicos da economia. Só no Piauí, por exemplo, estima-se que a facção paulista controle direta ou indiretamente mais de 25 postos de combustíveis, além de atuar em áreas como transporte, comércio varejista e até no ramo imobiliário.
Essas empresas funcionam como “lavanderias” modernas, dando aparência de legalidade a recursos oriundos de atividades ilícitas. O resultado é duplo: de um lado, o Estado perde arrecadação; de outro, comerciantes honestos são esmagados pela concorrência predatória de negócios financiados com dinheiro sujo.
Não é a primeira vez que governos brigam pela paternidade de uma operação. O problema é que, nesse jogo, a sociedade acaba ficando em segundo plano. Em vez de discutir como o crime organizado conseguiu se infiltrar com tanta facilidade na economia brasileira, governadores e ministros preferem trocar farpas e colher dividendos eleitorais.
Mais grave: o governo federal se recusa a classificar as facções criminosas como grupos terroristas, o que abriria caminho para instrumentos legais mais duros, como bloqueio imediato de bens, restrição internacional de movimentações financeiras e cooperação direta com organismos multilaterais. O resultado é que, mesmo após bilionárias operações, parte significativa do patrimônio criminoso segue circulando.
Se o PCC controla mais de mil postos em todo o país, movimenta bilhões em fundos de investimento e consegue cooptar até agentes públicos, o que mais falta para que o Estado brasileiro o reconheça como ameaça terrorista?
Até quando a sociedade vai aceitar a narrativa de que megaoperações pontuais resolvem um problema que é estrutural?
Porque, no fim, o Carbono Oculto não revelou apenas a força do PCC. Revelou também a fragilidade de um Estado que ainda disputa vaidades em vez de se unir de forma implacável contra a maior organização criminosa do Brasil — e uma das maiores do mundo.
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