
Foi-se o tempo em que o Partido dos Trabalhadores (PT) no Piauí deliberava democraticamente sobre os rumos da sigla, a composição de chapas majoritárias e a escolha de vices. Desde os tempos de Wellington Dias no Palácio de Karnak, a lógica é outra: manda quem está no poder. O diretório estadual, hoje, não passa de uma instância homologatória, obrigada a engolir as decisões já tomadas pelo governador de plantão.
Com Rafael Fonteles, essa realidade não apenas se repete, como se aprofunda. O atual governador já mostrou que não cede a pressões, nem mesmo quando elas vêm do “cacique maior” do petismo piauiense, o senador e ministro Wellington Dias. Tentou emplacar o filho, o médico Vinícius Dias, como candidato a vice na chapa de Fonteles. O único atributo político do jovem? Ser filho do ex-governador. A resposta de Fonteles foi seca e definitiva: não.
Corre nos bastidores do Karnak que Rafael Fonteles assumiu o compromisso de que seu vice será o secretário de Educação Washington Bandeira, ex-magistrado que abandonou a toga para integrar o governo. O governador entende que não pode voltar atrás. Depois de rifar o atual vice, Themístocles Filho (MDB), desafiar Wellington Dias se tornou quase fichinha.
A escolha de Bandeira, contudo, escancara a nova face do petismo local: não há mais espaço para disputas internas, debates programáticos ou consultas ao diretório. O PT piauiense virou o PDT, o PSB ou qualquer outra sigla fisiológica: sobrevive para manter o poder, sem questionamentos.
Enquanto isso, Wellington Dias tenta garantir espaço para o herdeiro político. A Assembleia Legislativa parece pouco para Vinícius; o alvo é Brasília. O cálculo é simples: em 2027, o deputado federal Júlio César (PSD) deve assumir vaga no Senado, ao lado da esposa, a senadora Jussara Lima. Caso Vinícius seja o suplente, a herança de uma cadeira no Congresso será questão de tempo.
O roteiro não é novo. Foi assim que Jussara assumiu o mandato, após Wellington ser chamado por Lula para o ministério. O PT do Piauí aprendeu a operar nesse sistema de suplências, acomodações e heranças políticas — prática que antes criticava ferozmente nos adversários.
Ao MDB, o consolo. Fonteles teria prometido apoiar Themístocles Filho em sua volta à Assembleia Legislativa, além de ceder a Secretaria de Saúde em 2027 ao deputado estadual Felipe Sampaio, que devolveria a cadeira ao pai. Trata-se de um prêmio de consolação pela perda da vaga de vice, mas ainda sem anúncio oficial.
O que salta aos olhos é o silêncio do diretório estadual. Ninguém ousa contestar Rafael Fonteles. Da mesma forma que, no plano nacional, o PT não contraria Lula, no Piauí a regra é clara: quem manda é o governador. A militância, que um dia sonhou com protagonismo, hoje assiste calada à transformação do partido em uma máquina de poder semelhante às que tanto criticou no passado.
Como dizia o mineiro Magalhães Pinto, “a política é como nuvem: você olha e ela está de um jeito; olha de novo e já mudou”. No Piauí, porém, a nuvem parece estacionada no mesmo lugar há mais de duas décadas.
Rafael Fonteles pode até não ser pajé, mas já é quem segura o cachimbo, o cocar e o tacape. E, sobretudo, a caneta — a verdadeira arma do poder. No fim das contas, resta ao PT apenas engolir as decisões, sem chiados. E a Wellington Dias, encontrar outro caminho para o filho, mesmo que seja à custa de mais acomodações políticas.
No tabuleiro piauiense, a frase que melhor define o momento é a mais antiga da política: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
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