
Se tem uma coisa que já virou regra no Brasil, é a corrupção em megaeventos. Copa do Mundo, Olimpíadas, Ferrovia Norte-Sul... e agora, a COP30, aquela conferência que prometia projetar o país como baluarte das causas climáticas e ambientais. Pois é, lá estava, em seu posto de honra, sua excelência a Corrupção — travestida ora de obras superfaturadas e inúteis, ora no ritual das propinas trocadas com toda pompa e circunstância. E não pense que isso é exceção; é regra do samba, digo, do carimbó brasileiro.
O Gazeta Hora 1 já havia dado a deixa, mas agora o assunto ganha fôlego na reportagem exclusiva do Metrópoles, o portal mais acessado do país, com dados da Procuradoria-Geral da República (PGR) que denunciam um esquema de corrupção milionário envolvendo a licitação da COP30. A pergunta que não quer calar: onde está o ralo por onde escapa a grana pública? Quem são os protagonistas dessa festa nada democrática? Pará ou União — quem pesou mais a mão no saquinho de dinheiro?
A história começa num dia quente de 4 de outubro de 2024, às vésperas das eleições municipais. Uma denúncia anônima levou a Polícia Federal até uma agência do Banco do Brasil em Castanhal, no Pará, onde flagraram o tenente-coronel da PM Francisco Galhardo com R$ 5 milhões em espécie. Não era troco de padaria: Galhardo entregava R$ 380 mil para Geremias Hungria, outro personagem que logo apareceu nas investigações. Prisão em flagrante, crime eleitoral e um celular apreendido que virou uma mina de ouro para os investigadores.
Além de mensagens de compra de votos, o aparelho revelou uma conexão que vai bem além: indícios robustos de corrupção na licitação da COP30, com saques que chegam a impressionantes R$ 48,8 milhões retirados das contas de duas construtoras — J.A Construcons e JAC Engenharia — ligadas ao deputado federal Antônio Doido (MDB-PA) e sua esposa, Andréa Dantas. Para completar o samba, Geremias Hungria, funcionário da fazenda do deputado, aparece como sócio e receptor das fortunas desviadas.
São contratos que somam quase R$ 300 milhões, com licitações suspeitas de fraude, e o governo do Pará cancelou o contrato só depois que a imprensa expôs o escândalo e que um dos sócios foi preso. No meio do roteiro, conversas cifradas entre o PM e o secretário estadual de Obras, Ruy Cabral, indicam a entrega de dinheiro vivo, como em um corre-corre clandestino, “vem”, “entra”, “deixei com a Andréia” — palavras que desmascaram o conluio que deveria estar protegido pela “transparência pública”.
O que temos é uma verdadeira organização criminosa, com policiais, políticos e empresários dançando juntos o carimbó do desvio. A Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito contra Antônio Doido, sua esposa, o PM Galhardo e o secretário Ruy Cabral. Eles são suspeitos de corrupção ativa e passiva, crimes contra a administração pública, violações em processos licitatórios e até delitos eleitorais.
Diante da pressão, o governo do Pará tentou jogar a responsabilidade para longe, alegando que a licitação não estava no escopo oficial da COP30. Só que o próprio site do estado mostrava o contrário, em uma dança desconexa que mais parece a coreografia do empurra-empurra. O contrato foi cancelado, mas não antes do mal estar público e da prisão em flagrante.
Já os acusados negam o óbvio, reclamam do vazamento das investigações e se dizem tranquilos quanto aos atos praticados. Como sempre, o roteiro da defesa é ensaiado: ilações, vazamentos, e o clássico "estamos à disposição para prestar esclarecimentos".
No palco da política brasileira, a COP30 entra para a lista dos megaeventos marcados por uma trilha sonora que não deveria existir: o batuque dos esquemas que drenam dinheiro público, abafam vozes honestas e perpetuam a impunidade. Enquanto a população paga a conta, alguns fazem a festa com o dinheiro que deveria cuidar do meio ambiente e do futuro do planeta.
O carimbó da corrupção no Pará ecoa forte, embalando mais um capítulo dessa novela que parece não ter fim. Mas a pergunta que fica é: até quando o Brasil vai permitir que esse ritmo desafinado governe a festa da nação?
BRASIL Brasil - A engrenagem da escassez: como o poder se alimenta da miséria
NEM TODOS ESTÃO? Cuidando do que importa?
SELEÇÃO Seleção do IBGE segue com inscrições abertas até 9 de julho no Piauí Mín. 20° Máx. 38°