
O Brasil ainda não apagou da memória os escândalos milionários da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas do Rio em 2016 — símbolos de corrupção que drenaram recursos públicos e deixaram dívidas que o povo paga até hoje. Agora, a história ameaça se repetir.
Faltando mais de um ano para a Conferência do Clima da ONU, a COP30, marcada para novembro de 2025 em Belém do Pará, denúncias de superfaturamento e corrupção já rondam o evento. Mais de 20 países sinalizaram desinteresse em participar diante dos preços abusivos de hospedagem e, pior ainda, da sombra de irregularidades em contratos bilionários do governo do Pará.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) apura indícios de fraude em licitações da COP30 que envolvem as empreiteiras J.A Construcons e JAC Engenharia, ambas ligadas ao deputado federal Antônio Doido (MDB/PA).
Segundo a PGR, essas empresas já receberam R$ 911 milhões do governo do Pará desde 2020. Os valores foram descobertos após a prisão do tenente-coronel da PM Francisco Galhardo, flagrado ao sacar R$ 5 milhões em espécie às vésperas das eleições de 2024. Mensagens encontradas em seu celular indicam repasses ao secretário estadual de Obras, Ruy Cabral, logo após licitações milionárias.
Em setembro de 2024, por exemplo, o consórcio formado pela JAC Engenharia e J.A Construcons venceu uma licitação de R$ 142 milhões para obras no Canal Benguí. No mesmo dia, Galhardo sacou R$ 6 milhões em Castanhal (PA) e se reuniu dias depois com o secretário de Obras.
A PGR fala em indícios claros de organização criminosa, envolvendo empresários, agentes públicos e políticos locais.
O modus operandi é velho conhecido: consórcios suspeitos, valores inflados, uso de empresas em nome de laranjas e movimentações financeiras incompatíveis com a atividade declarada.
A PGR cita inclusive dados do Coaf, que apontam desvio de recursos públicos e fraude em processos licitatórios. Para investigadores, trata-se de um “esquema com a mesma lógica dos grandes escândalos da Copa e das Olimpíadas”.
A suspeita de corrupção ameaça minar a credibilidade da COP30 antes mesmo do início. Além de afastar delegações estrangeiras, pode transformar o evento em mais um símbolo do atraso institucional brasileiro — um palco internacional manchado por denúncias.
O contraste é gritante: enquanto o mundo discute soluções para o aquecimento global, o Brasil corre o risco de exportar ao planeta a imagem de um país que não consegue organizar um evento sem cair no pântano da corrupção.
O governo do Pará afirma que todos os contratos foram firmados por meio de licitações regulares, seguindo os princípios da legalidade e da transparência.
O secretário de Obras, Ruy Cabral, nega ter recebido vantagens e diz manter apenas interlocução institucional.
A defesa do deputado Antônio Doido acusa “vazamento criminoso” e garante que os fatos já foram esclarecidos nos autos.
Enquanto isso, a PGR prossegue com as investigações. Resta saber se o Brasil repetirá o roteiro da Copa e da Olimpíada ou se conseguirá salvar a COP30 de ser mais um escândalo na longa lista de megaeventos marcados pela corrupção.
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