
A célebre frase de William Shakespeare em Hamlet - “Há algo de podre no reino da Dinamarca” - nunca soou tão atual, mas agora ecoa do coração da América do Sul: há algo de podre na República Federativa do Brasil. E não é pouco. É podre, asqueroso e corrosivo.
A podridão que Shakespeare imaginou para um drama de traição familiar hoje se materializa na política e na Justiça brasileiras. Um consórcio informal entre Executivo e Judiciário age como um falso rei absoluto, que subjuga a democracia, persegue opositores e descondena uma quadrilha onde um único criminoso acumulava mais de 420 anos de prisão. Todos livres. Todos no poder. Todos intocáveis.
Pode? Nem o mais criativo dos dramaturgos imaginaria um cenário tão distópico fora dos palcos. Mas aqui, nessa terra vasta e rica, um líder político é perseguido, humilhado, enjaulado em tornozeleiras, proibido até de falar com o próprio filho - e tudo isso sem crime provado, apenas por conveniência de quem detém a caneta e a toga.
Hoje foi Jair Bolsonaro. Amanhã pode ser qualquer um. Porque, neste “reino” deformado, ninguém está imune aos devaneios de um rei sem coroa, mas com poder suficiente para sufocar metade do país.
Nesta sexta-feira (18), a Polícia Federal cumpriu ordens do ministro Alexandre de Moraes para mais um espetáculo de perseguição. Mandados de busca e apreensão, tornozeleira eletrônica imposta ao ex-presidente, proibição de uso de redes sociais, veto a falar com diplomatas e até a falar com o próprio filho Eduardo Bolsonaro. Motivo? Um suposto “risco de fuga”. Coincidência ou não, tudo isso ocorre um dia depois de Donald Trump divulgar uma carta pública em apoio a Bolsonaro, pedindo que fosse suspenso o julgamento conduzido pelo STF.
O povo brasileiro está anestesiado ou fingindo que não vê? A Justiça já deixou de ser justa há muito tempo. Os tribunais viraram palco de arbitrariedades e de vinganças políticas. Não é mais só sobre Lula ou Bolsonaro - é sobre o destino de todos nós.
Shakespeare nos alertava que quando o poder apodrece, a nação toda adoece junto. A democracia brasileira agoniza sob o peso de decisões autoritárias disfarçadas de legalidade.
O Brasil não pode continuar empastelado como se fazia com jornais na ditadura militar. Talvez hoje seja até pior: a censura é sutil, mas devastadora. A falsa normalidade do autoritarismo “institucional” corrói nossa liberdade dia após dia.
É hora de acordar. Porque há algo de podre no Brasil - e não vai parar por conta própria.
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