
Quando o crime mora ao lado
O avanço da criminalidade no Brasil atingiu um nível tão espantoso que já parece naturalizado. A violência não é mais algo que acontece "longe"; ela se instalou ao lado - mora na casa vizinha, atravessa nossa rua, invade nossos espaços mais íntimos. Os bandidos, cada vez mais audazes, não poupam ninguém: nem o cidadão comum, nem aqueles que têm por função justamente nos proteger.
Hoje, policiais civis e militares são atacados não por serem símbolo da ordem, mas por carregarem armas que os criminosos desejam. Muitas vezes, perdem a vida em abordagens covardes perpetradas pelos "senhores do crime". Juízes têm suas casas invadidas, suas famílias feitas reféns, como já aconteceu em Parnaíba, no litoral piauiense. Agora, o alvo mais recente foi um promotor de Justiça do Piauí, José Reinaldo Leão Coelho, assaltado em Timon (MA), onde teve seu carro levado por marginais.
E a pergunta que grita é: até quando? Até quando o pagador de impostos vai viver numa insegurança que já é policial e jurídica? Até quando vamos ver a justiça tratando bandidos com mais benevolência do que vítimas?
Criminosos parecem mais seguros nas ruas do que os agentes da lei. A prisão, quando ocorre, é breve. A sentença, quando sai, é leve. A execução da pena, quando não é substituída, é relaxada. A segregação do criminoso da sociedade, que deveria ser a regra, virou exceção.
Será necessário que os bandidos troquem suas armas por batons para serem tratados com a urgência e o rigor que a lei deveria ter sempre aplicado? Precisarão pichar as cenas de crime com slogans coloridos para mobilizar o aparato judicial? Ou será que só quando a audácia dos marginais ultrapassar mais alguma linha estética ou ideológica é que haverá reação dura, célere e exemplar?
Enquanto essas perguntas ficam no ar, a realidade é esta: o promotor teve seu carro, um Jeep Compass, levado. A Polícia Militar do Maranhão recuperou o veículo, mas não sem encontrar, no esconderijo dos bandidos, uma arma de fogo municiada, três carregadores e anabolizantes. Os suspeitos foram presos por receptação - um crime infinitamente menor que o terror causado. Detalhe: um veículo que custa hoje mais de R$ 150 mil foi vendido no ferro velho, numa sucata, no bairro Jóia, por apenas R$ 15 mil.
Quem comprou sabia que tratava-se de produto de roubo. Mas como sabe que o crime compensa, amanhã estará literalmente na rua. Quem sabe na audiência de custódia. E o ciclo de receptação volta à nomalidade, afinal, o crime não para.
O Brasil virou um país onde o crime não apenas compensa - ele se acomoda, prospera e ironiza as estruturas de segurança e justiça. Até quando a sociedade aceitará isso sem uma revolta genuína? Mesmo que seja uma revolta cosmética - quem sabe usando rímel, glíter, gloss, pó compacto e a arma mais perigosa: um batom vermelho, considerado a cor mais impactante e marcante, capaz de destacar os lábios e adicionar um toque de ousadia ao visual.
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