
Um episódio revoltante de violência e preconceito sacudiu o Shopping Grand Plaza, em Santo André (SP), no último domingo (20). Um jovem ambulante de 20 anos foi brutalmente agredido por seguranças do centro comercial após ser acusado de furtar chocolates em uma unidade da loja Americanas. A acusação, segundo familiares da vítima e funcionários da própria loja, era falsa: o rapaz havia comprado os produtos e apresentou a nota fiscal, que consta em vídeo divulgado pela família.
A resposta, por mais que se tente camuflar com jargões institucionais, parece clara: racismo estrutural e preconceito de classe. O jovem é um vendedor ambulante, negro, pobre - e para muita gente, isso basta como critério de “suspeição”. Ainda que não houvesse prova alguma de furto, a postura violenta dos seguranças, a truculência do espancamento, a destruição do celular e o roubo dos pertences da vítima revelam uma convicção prévia: para eles, aquele corpo já carregava a culpa.
Não há qualquer indício de que o segurança conhecesse a vítima. A suspeita foi construída única e exclusivamente a partir da aparência e da origem social do jovem.
Durante a agressão, familiares tentaram intervir. Um tio do jovem, em vídeo, afirma que o sobrinho compra regularmente na Americanas há três anos, sendo cliente recorrente. Funcionários da própria loja teriam confirmado que o ambulante não furtou os produtos. Nada disso, porém, bastou para impedir a ação dos seguranças terceirizados do shopping, que o espancaram, confiscaram seus objetos pessoais e causaram lesões físicas e emocionais.
O caso foi registrado como lesão corporal e dano no 6º Distrito Policial de Santo André. O jovem foi orientado a realizar exame de corpo de delito e deve entrar com ações judiciais contra os agressores. Segundo apuração preliminar, a família avalia processos contra os seguranças, contra o Shopping Grand Plaza - responsável pelo contrato com a empresa terceirizada - e possivelmente contra a própria Americanas, mesmo que indiretamente.
O shopping, em nota, limitou-se ao discurso padrão:
“Não toleramos violência. Estamos apurando. Seguimos colaborando com as autoridades”.
A Americanas, por sua vez, se isentou da responsabilidade, afirmando que os seguranças não são seus funcionários. A empresa alegou que prestou apoio à vítima, sem detalhar o que isso significou na prática.
Casos semelhantes já aconteceram no Grand Plaza. Relatos antigos nas redes sociais mencionam abordagens abusivas e ações discriminatórias por parte dos seguranças do shopping, principalmente contra jovens negros e vendedores ambulantes. A reincidência, porém, parece não abalar a estrutura do empreendimento, que continua terceirizando sua segurança a empresas que frequentemente operam sob o lema tácito da intimidação.
A maior dúvida, agora, é se haverá responsabilização real. Seguranças violentos serão identificados e punidos? A empresa terceirizada será contratualmente penalizada? O shopping será responsabilizado civilmente pela falha em garantir um ambiente seguro e isento de preconceito? A Americanas fará algo além de “repudiar a violência”?
O ambulante agredido, que teve sua dignidade violada por ter ousado comprar um chocolate sendo quem é, cobra mais do que notas de repúdio. Cobra justiça. Cobra respeito. Cobra o fim de uma rotina em que ser jovem, negro e pobre é, por si só, uma sentença antecipada de culpa - e, por vezes, de espancamento.
A depender da resposta das autoridades e da Justiça, saberemos se o Brasil quer apenas “apurar os fatos” ou se está disposto a enfrentá-los de frente.
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