
Ser de esquerda no Brasil já foi sinônimo de resistência, coragem e enfrentamento aos poderosos. Já foi bandeira de justiça, de combate à desigualdade, de luta pelos invisíveis. Mas hoje, para quem ocupa cargos, ministérios, cadeiras no Congresso e espaços no Planalto, ser de esquerda parece significar outra coisa: calar-se diante do inaceitável quando o inaceitável serve aos próprios interesses.
A libertação de Chiquinho Brazão, acusado de ser mandante do assassinato de Marielle Franco, é um desses episódios que escancaram a decadência moral e política da esquerda institucional brasileira. O homem que, segundo investigações robustas, articulou com milicianos a execução de uma vereadora negra, mulher e defensora dos direitos humanos, está livre. E não foi qualquer juiz que mandou soltá-lo — foi o STF, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, sob o silêncio sepulcral de quem deveria estar em estado de revolta.
Onde está a ministra Anielle Franco, irmã de Marielle? Onde está sua voz? Onde está a denúncia pública, a indignação visceral? Em que momento a tragédia familiar deu lugar à conveniência política? Que laço é esse com o poder que engole até a dor mais legítima?
Onde estão os gritos de Gleisi Hoffmann, presidente do PT? Cadê a mobilização das feministas que tomaram as ruas por Marielle? Cadê os cartazes, os discursos inflamados, os “ninguém solta a mão de ninguém”? Parece que agora soltam, sim. E soltam justamente a mão da justiça.
E o presidente Lula, que prometeu “descobrir quem mandou matar Marielle”? Agora que o nome veio à tona, o que ouvimos dele foi o silêncio. Um silêncio cúmplice, desconfortável, cúbico. Um silêncio que valida a decisão de um ministro do Supremo, em cuja força o governo se escora.
Janja, sempre tão eloquente nas causas simbólicas, agora não tem nada a dizer? Nenhuma nota? Nenhuma lágrima pública? Nenhuma solidariedade à irmã que hoje convive com o assassino da sua irmã solto por um governo que ela mesma compõe?
A verdade é dura, mas precisa ser dita: a esquerda no poder está fingindo que não vê. E quando finge que não vê, vira cúmplice. A justiça por Marielle foi transformada em palanque. Foi útil até onde não feria alianças, até onde não arranhava ministros amigos. Mas agora, com o dedo apontando para o lado errado do tabuleiro, a indignação sumiu. E com ela, a coerência.
Enquanto isso, o povo paga impostos recordes, convive com o preço absurdo da comida, vê o governo recriar tributos camuflados e o STF agir como poder moderador absoluto. E ninguém da cúpula da esquerda diz nada. Porque criticar agora “fortalece a direita”. Como se a verdade fosse um luxo da oposição.
A militância é feita refém da conveniência. E o governo, do STF.
Quem acredita em justiça se vê traído. Quem acreditava que Marielle era símbolo, hoje percebe que era só um cartaz útil para tempos eleitorais. Porque se o assassino da vereadora pode sair da cadeia sem causar comoção no coração do governo que se diz progressista, então tudo que foi dito sobre direitos humanos e justiça social virou só espuma retórica.
A esquerda brasileira, diante desse escândalo, teve a chance de se provar honesta. Preferiu ser governista. Escolheu a obediência. Perdeu a alma.
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