
O Rio Grande do Sul amanheceu sob o peso de uma estatística estarrecedora: seis mulheres foram assassinadas em um intervalo de menos de 24 horas entre a madrugada e a tarde da Sexta-feira Santa (18). Todas as mortes têm um denominador comum: a violência de gênero. Ex-companheiros, companheiros ou homens inconformados com o fim de relacionamentos. O retrato de um Estado (e de um país) onde o machismo não apenas sobrevive - ele mata.
Não se trata de uma "onda de violência" casual. Segundo a própria Polícia Civil, não houve ligação direta entre os crimes, mas o elo é estrutural: machismo, misoginia e o sentimento de posse sobre o corpo e a vida da mulher.
O que mais choca - e revolta - não é apenas o número de vítimas, mas o padrão cruel dos casos: mulheres que decidiram recomeçar a vida, romper ciclos de violência, sair de relacionamentos abusivos - e foram mortas por isso. Nenhuma delas possuía medida protetiva ativa. Não por descuido, mas por medo.
“Até 90% das vítimas de feminicídio não têm medida protetiva. O medo paralisa”, disse Fernando Sodré, chefe de polícia do RS. É um dado que deveria acender sirenes em todas as esferas do poder público.
As mortes de Caroline Dorneles, grávida e mãe de uma menina de 5 anos, assassinada a facadas; Raíssa Müller, morta ao lado do namorado por um ex inconformado; Patrícia Azevedo, alvejada com um tiro na cabeça dias após terminar um relacionamento; e outras três vítimas, compõem um mosaico de horror que expõe, mais uma vez, o fracasso do aparato estatal na proteção de mulheres em risco.
Diante do massacre, o governo estadual correu para anunciar que, a partir da próxima semana, será possível solicitar medidas protetivas de urgência pela internet. A iniciativa, embora positiva e necessária, soa como reação emergencial diante de uma tragédia, e não como uma política pública estruturada.
A ferramenta, que já estava em fase de implementação, foi apressada. Segundo a Polícia Civil, ela permitirá que vítimas solicitem proteção sem precisar ir fisicamente até uma delegacia, o que poderá evitar a exposição ao agressor e quebrar o ciclo de medo e silêncio. O delegado Christian Nedel foi direto: “É o mecanismo legal mais crucial que temos neste momento.”
A pergunta que fica: por que não veio antes?
Nos seis casos, os autores foram presos - alguns em flagrante, outros preventivamente. Mas a cadeia, nesses casos, chega tarde demais. Nenhuma sentença vai devolver a vida dessas mulheres, muito menos reparar o trauma deixado em filhos, irmãs, mães e comunidades inteiras. Em São Gabriel, por exemplo, a filha de 6 anos presenciou a própria mãe ser assassinada a facadas. Isso também é uma forma de homicídio: a infância dela foi brutalmente rompida.
Chamar o feminicídio de "caso isolado" é ignorar o óbvio: ele é sistêmico, alimentado por estruturas culturais e pela omissão de quem governa. Enquanto o Estado não se comprometer com políticas de prevenção, educação e acolhimento das vítimas, seguirá contando cadáveres e emitindo notas de pesar.
A criação de mecanismos digitais de proteção é importante. Mas precisa vir acompanhada de:
investimento em delegacias especializadas e em pessoal capacitado;
educação de gênero nas escolas, para romper a lógica do controle e da posse;
monitoramento dos agressores, com tecnologia e fiscalização efetiva;
acolhimento psicológico das vítimas, para que denunciem sem medo.
O que aconteceu no Rio Grande do Sul nesta Sexta-feira Santa não é apenas estatística - é um grito de socorro coletivo. Cada uma dessas seis mulheres tinha nome, história, sonhos. E todas foram assassinadas por serem mulheres em uma sociedade que ainda aceita que o “não” feminino seja respondido com violência.
Se o poder público não ouvir agora, vai ouvir de novo. Com novos nomes. Novos corpos. Novas crianças órfãs.
Medida protetiva digital é um passo. Mas o caminho é longo - e urgente.
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