
A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Piauí, marcada para o próximo dia 14 de abril, deve repetir um roteiro simbólico, porém vazio de realizações concretas. Desta vez, a presença presidencial terá como foco a política educacional do Estado, em especial o modelo de escolas em tempo integral, que vem sendo promovido pelo governador Rafael Fonteles como um trunfo de gestão. Lula deve visitar uma dessas unidades e participar de evento ao lado do petista piauiense.
Contudo, a expectativa em torno da passagem do presidente pelo Estado que lhe deu a maior votação proporcional nas eleições de 2022 esbarra em uma realidade difícil de esconder: o Piauí, mesmo sob um governo estadual aliado e com sólida presença petista, tem sido relegado a segundo plano quando se trata de investimentos federais em obras estruturantes.
Tradicionalmente, presidentes da República visitam os Estados brasileiros para entregar obras de grande porte, anunciar programas de desenvolvimento regional ou inaugurar empreendimentos estratégicos. Lula, em seus mandatos anteriores, seguiu essa lógica. Foi assim com o lançamento do programa Fome Zero no Piauí, uma ação de forte impacto simbólico e político. Agora, no entanto, a visita se resume a um gesto de presença - uma fotografia institucional, talvez uma fala em defesa da educação, mas sem qualquer entrega significativa que justifique o alarde midiático.
Ainda que o rebaixamento da BR-343, na Ladeira do Uruguai, esteja sendo apontado como realização federal, a verdade é que trata-se de uma obra herdada e finalizada apenas na atual gestão. O mesmo ocorre com o anúncio de apoio ao Porto de Luís Correia e ao Intermodal do Vale do Parnaíba, citados na visita anterior, mas sem evolução visível até aqui.
Por que o governo federal tem investido tão pouco no Estado? A resposta passa por uma conjunção de fatores. Em primeiro lugar, há uma evidente priorização política de outras regiões com maior peso orçamentário e eleitoral. O Nordeste - outrora vitrine do lulismo - hoje aparece apenas como palco de discursos e ações pontuais. A estrutura de financiamento federal tem sido mais modesta do que o discurso sugere.
O Piauí, por exemplo, ainda sofre com gargalos em infraestrutura, como a eterna promessa do Porto de Luís Correia e a falta de investimentos robustos em estradas, saneamento e mobilidade urbana. A transposição do São Francisco - que poderia beneficiar diretamente também parte do território piauiense - teve as torneiras secadas. E a política de segurança pública do governo federal tem sido alvo de críticas até entre aliados, diante do avanço da criminalidade nas regiões periféricas.
A visita de Lula ao Nordeste tem sido defendida internamente no governo como parte de uma estratégia de reaproximação com sua base tradicional, liderada pelo publicitário Sidônio Palmeira, responsável pela comunicação do Planalto. A ideia é frear a queda de popularidade do presidente, que enfrenta crescente insatisfação popular, inclusive entre os que tradicionalmente o apoiaram.
Mas o plano não tem surtido efeito.
A razão parece clara: não há mais espaço para retórica dissociada da prática. O povo nordestino - e o piauiense, em particular - está mais exigente, mais atento e menos disposto a aplaudir promessas. A ausência de entregas concretas enfraquece a simbologia do lulismo. A ideia de que o povo “entende” ou “espera” já não se sustenta. A política do discurso perdeu para a política da cobrança.
A percepção crescente entre antigos eleitores é a de que Lula se distanciou de suas raízes populares. O carisma que o ligava ao chamado “povão” ainda existe, mas não basta. O desemprego persiste, a inflação castiga o orçamento dos mais pobres, e a sensação de insegurança urbana cresce em capitais como Teresina. Tudo isso cobra um preço - não só nas pesquisas de opinião, mas também na rua, na feira, no transporte coletivo.
A visita ao Piauí, portanto, expõe mais do que mostra. Expõe o esvaziamento de uma relação que já foi simbiótica. Expõe a ausência de uma estratégia de desenvolvimento real para o Estado. Expõe, sobretudo, a dificuldade de um governo em dialogar com sua base mais fiel quando não há entregas para mostrar.
E mais: evidencia que o eleitorado nordestino não quer apenas um presidente que venha tirar foto ao lado de aliados locais. Quer obra, quer estrada, quer água, quer segurança. Quer respeito. E começa a perceber que esse respeito não se conquista apenas com palavras. O tiro pode sair pela culatra.
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