Segunda, 13 de Julho de 2026
28°

Parcialmente nublado

Teresina, PI

Política POLÍTICA PERVERSA

Crime, política e impunidade: Quando o Poder se torna refém da corrupção e do crime organizado

Do tráfico de influência ao cultivo de drogas, passando por assassinatos e fraudes milionárias: o retrato alarmante de uma política que flerta perigosamente com o crime - e da sociedade que paga a conta

06/04/2025 às 15h55 Atualizada em 06/04/2025 às 16h13
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Banner publicado pela página O Piauiense que revela que apenas dois dos 10 representantes do povo na Câmara Federal votaram pela urgênica no PL da Anistia - Foto: Reprodução
Banner publicado pela página O Piauiense que revela que apenas dois dos 10 representantes do povo na Câmara Federal votaram pela urgênica no PL da Anistia - Foto: Reprodução

O limiar entre a política e o crime no Brasil nunca foi tão turvo - ou tão perigoso. A pergunta que se impõe com urgência é: estamos diante de um processo em que o crime se infiltra nas instituições democráticas ou, ao contrário, assistimos à verdadeira face criminosa de parte da classe política finalmente vindo à tona?

O caso recente que mobilizou o debate público no Piauí - apenas dois dos dez deputados federais do Estado votando a favor da urgência no Projeto de Anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro - revela algo maior do que divergência ideológica. Expõe um distanciamento crescente entre representantes e representados, entre os interesses da sociedade e os projetos de poder que se articulam nos bastidores de Brasília.

A democracia brasileira, construída sobre os alicerces da representatividade, vem sendo corroída por uma lógica perversa de autointeresse. Muitos parlamentares, após eleitos, esquecem a quem devem seus mandatos. Agem como donos do poder, não como servidores públicos. O resultado é um Congresso Nacional repleto de figuras blindadas por privilégios, desconectadas da realidade da população que deveria representar.

Bolha de privilégios, distância da realidade

Pergunte a um deputado federal do Piauí quanto custa um quilo de arroz ou uma dúzia de ovos. Duvido que saibam. Vivem numa bolha abastecida com auxílios, reembolsos, carros oficiais e planos de saúde pagos com dinheiro público. Alguns sequer pagam por um sorvete ou uma espiga de milho. Essa desconexão é, ao mesmo tempo, causa e sintoma da desilusão crescente do eleitorado com a política.

E não é apenas uma questão de privilégios. É, cada vez mais, uma questão criminal.

Quando o noticiário político se confunde com o policial

A política piauiense, como a de vários Estados brasileiros, frequentemente protagoniza manchetes que mais parecem saídas de roteiros policiais. Casos emblemáticos como o do ex-prefeito de Esperantina, Antônio Felipe Santolia Rodrigues - condenado a mais de 22 anos de prisão por corrupção, peculato e falsificação de documentos - ou do ex-prefeito Zé Simão, preso e posteriormente absolvido por feminicídio, mostram a profundidade da crise ética e institucional.

Mais recentemente, a prisão de Nivaldo Roberto Nogueira, ex-prefeito de Sebastião Barros, acusado de manter uma plantação de maconha de três hectares, evidenciou a ousadia com que o crime se entrelaça ao poder. E o escândalo mais recente, envolvendo a vereadora Tatiana Medeiros (PSB), presa sob acusação de financiar sua campanha com dinheiro de facção criminosa, reforça que essa não é uma realidade distante ou isolada. Está aqui, agora, em pleno exercício de mandato.

Uma democracia sequestrada

A promiscuidade entre política e crime não se limita ao Piauí. Ela se repete em todos os Estados brasileiros, revelando um sistema político que, muitas vezes, protege mais os criminosos do que os cidadãos. Um sistema que permite que bandidos se elejam - ou elejam seus representantes de fachada - para blindar seus interesses e ampliar seu poder sob o manto da legalidade.

Enquanto isso, o povo, esmagado por inflação, desemprego e insegurança, assiste de longe à festa dos poderosos, pagando caro por comida, transporte, saúde e educação - tudo aquilo que os políticos, convenientemente, recebem de graça.

Reflexão urgente

É preciso romper com essa lógica perversa. A criminalização da política não é apenas um discurso: é uma realidade, construída com a conivência de estruturas partidárias, com a omissão das instituições de controle e com a tolerância da própria sociedade, muitas vezes desacreditada e anestesiada.

A página "O Piauiense" levanta, com coragem, uma reflexão essencial: quem está realmente no comando - o poder legítimo ou o poder paralelo? Se não enfrentarmos essa pergunta de frente, corremos o risco de consolidar um sistema onde o crime não apenas influencia a política - ele a substitui.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários