
Eu hoje amanheci querendo ouvir um jazz. Mas, não um jazz qualquer. E minha mente e meu coração abriram a caixinha de lembranças e me trouxeram a voz inconfundível de Ella Fitzgerald. Sim, a voz única e inigualável da maior referência do jazz mundial. Mas, nem sempre foi assim. Ella Fitzgerald, a incomparável Diva do Jazz, enfrentou no início de sua carreira as barreiras cruéis do racismo e da discriminação corporal. Proibida de se apresentar na icônica boate The Mocambo, em Hollywood, Ella viu sua arte ser desconsiderada por uma sociedade incapaz de enxergar além de seus preconceitos. Mas foi então que surgiu Marilyn Monroe, um ícone do cinema, munida não apenas de beleza e talento, mas também de coragem e senso de justiça.
Marilyn, uma fã declarada de Ella, usou sua influência para mudar o curso da história. Ligou diretamente para o proprietário do clube, garantindo que, se Ella fosse contratada, ela própria estaria presente todas as noites, atraindo os holofotes da imprensa e tornando o local um verdadeiro centro de atenção. A promessa foi cumprida: Ella subiu ao palco do Mocambo, e Marilyn ocupou sua mesa na linha de frente todas as noites. O gesto simples, mas grandioso, abriu as portas do sucesso definitivo para Ella, que nunca mais precisou se apresentar em pequenos clubes de jazz.
Ella Fitzgerald não era apenas uma cantora; ela era uma força criativa capaz de transformar música em poesia. Sua voz, que atravessava três oitavas, cativava pela pureza tonal, pela dicção impecável e pelo improviso virtuoso no scat. Ao longo de 59 anos de carreira, conquistou 14 prêmios Grammy, a Medalha Nacional das Artes e a Medalha Presidencial da Liberdade. Mas, talvez, um dos momentos mais significativos de sua vida tenha sido marcado pela empatia de uma mulher que compreendeu o poder de usar sua voz para algo maior.
Meu primeiro contato com a voz encantadora de Ella Fitzgerald aconteceu na casa de uma das maiores - senão a maior - pianista piauiense: a irreverente Carla Baury Ramos. Foi lá, na casa dos Ramos, em Teresina, que tive o privilégio de educar meus ouvidos com boa música. Entre tantas joias sonoras, estava a diva Ella Fitzgerald, com seus blues, jazz e soul impecáveis, acompanhados, é claro, de seus inconfundíveis improvisos vocais. Aliás, a habilidade de improviso "semelhante a um instrumento de sopro", particularmente no scat.
"Ella representa o que há de melhor no cantar, no interpretar, no improvisar. Uma artista completa, versátil. Dona de uma voz polida, timbrada", assevera Carla Ramos sobre a Diva do Jazz. "Ela tinha uma técnica vocal perfeita. Além de uma criatividade e uma percepção musical enorme. Ella é uma aula, uma lição, uma escola para quem quer ser cantora, intrumentista. Uma referência muito grande não só no canto, mas no instrumento através da voz e da improvisação, que é o scat, criado pelo Louis Armstrong" completa Ramos.
Já a Norma Jeane Mortenson, ou melhor, Marilyn Monroe, apareceu na minha vida, assim, como na de todos nós, como o 'furacão' do cinema americano. Ela foi uma atriz, modelo e cantora de projeção mundial, assim, como Ella. Como estrela de cinema de Hollywood, foi e continua a ser um dos maiores símbolos sexuais do século XX, imortalizada pelos cabelos loiros e as suas formas voluptuosas.
Marilyn Monroe, com sua ação, em relação a Ella, demonstrou que a verdadeira grandeza vai além do brilho das câmeras; está em reconhecer a injustiça e agir para mudá-la. O legado desse encontro é uma celebração do espírito humano - o de Ella, que encantou gerações com sua música, e o de Marilyn, que, com um simples gesto, mostrou ao mundo que as mulheres reais apoiam e elevam umas às outras. Juntas, elas não apenas marcaram a história do entretenimento, mas também provaram que a arte e a solidariedade são forças transformadoras.
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