
Com a seca histórica que atinge a região Norte do Brasil, o tráfico de drogas na Amazônia precisou se adaptar. O Primeiro Comando da Capital (PCC) passou a utilizar aeronaves, como aviões de pequeno porte e helicópteros, para transportar cocaína e skunk (uma maconha mais potente produzida em laboratório) do Peru e outros países andinos para o Brasil. As rotas aéreas estão substituindo os tradicionais trajetos fluviais pelos afluentes do Rio Amazonas, inviabilizados pela baixa navegabilidade.
Segundo Marcus Vinícius Oliveira de Almeida, secretário de Segurança Pública do Amazonas, pelo menos duas aeronaves envolvidas no narcotráfico foram apreendidas este ano, e uma terceira já foi identificada. A seca e o aumento da fiscalização nos rios, como o Solimões, levaram os traficantes a adotar essa nova estratégia.
— “A produção de cocaína hoje é feita pelo próprio PCC no Peru. Eles estão usando tanto helicópteros quanto aviões para escoar a droga”, afirmou o secretário.
O uso de aeronaves, muitas vezes precárias ou provenientes de garimpos ilegais, tem se intensificado. As operações são realizadas em bases improvisadas na mata, que contam com o suporte de comunidades locais, seja por cooptação ou ameaça.
As aeronaves usadas pelos criminosos são frequentemente roubadas, com numeração raspada e em condições inadequadas. Algumas foram abandonadas devido a problemas mecânicos, enquanto pilotos e mecânicos fugiram pela floresta.
Em uma apreensão, um helicóptero foi encontrado em Alvarães, próximo a um acampamento que incluía antena de internet via satélite, placas de energia solar e um freezer com alimentos. Em outra operação, 238 kg de skunk foram apreendidos em um helicóptero que ingressou no espaço aéreo brasileiro vindo da Venezuela.
As forças de segurança enfrentam desafios para combater o tráfico aéreo, especialmente pela falta de recursos no estado do Amazonas. Operações conjuntas da Polícia Federal (PF), Força Aérea Brasileira (FAB), e polícias locais têm sido realizadas para interceptar as aeronaves.
A FAB destacou que realiza ações permanentes de policiamento do espaço aéreo, como a Operação Ostium, com vigilância intensiva na região de fronteira. Em casos de não cooperação por parte das aeronaves interceptadas, a FAB pode aplicar o tiro de detenção (TDE). Desde o início dessas operações, cinco aeronaves foram atingidas por TDE na Amazônia Legal.
Em uma das operações de destaque, o helicóptero Robinson R44 foi apreendido enquanto estava no solo, aguardando reparos mecânicos. Na mesma região, houve a apreensão de 4,2 toneladas de cocaína. Em outra ação, uma aeronave foi forçada a pousar próximo a Manaus, com a carga de skunk apreendida pela PF.
A FAB, além de radares e aviões de combate como o F-5M e o A-29 Super Tucano, utiliza drones, sensores de satélite e o avião-radar E-99 para monitoramento aéreo. Helicópteros são usados para transportar agentes para operações em áreas remotas.
O PCC, além de ser responsável pela distribuição das drogas, assumiu também a produção de cocaína em países como o Peru. Essa verticalização fortalece o controle da organização sobre o tráfico, ampliando sua influência no Brasil e no exterior, com a distribuição alcançando Europa e África.
Com a seca sem precedentes e o fortalecimento das fiscalizações fluviais, o tráfico de drogas na Amazônia se reinventa. As novas rotas aéreas, porém, exigem maior atenção e recursos das autoridades, que enfrentam dificuldades logísticas para combater o avanço do narcotráfico.
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