
O uso intensivo de recursos hídricos na região do Matopiba – que inclui o Piauí, Maranhão, Tocantins e Bahia – aliado à seca intensa e ao recorde de incêndios que castigaram o Cerrado em 2023, pode colocar a região em risco de escassez de água nos próximos anos. É o que aponta um estudo liderado por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), publicado recentemente na revista Ambio – Journal of Environment and Society.
A região, que desponta como um dos principais polos agrícolas do país, pode ver entre 30% e 40% de suas terras cultiváveis comprometidas quanto à disponibilidade de água para irrigação entre 2025 e 2040. A previsão coloca em alerta a sustentabilidade do crescimento agrícola no Matopiba, que, de acordo com o Ministério da Agricultura, espera expansão de 37% na produção, com estimativa de 48 milhões de toneladas de grãos na próxima década.
“Há um paradoxo preocupante: o uso intensivo de recursos hídricos para a agricultura, combinado com as mudanças climáticas, pode minar a produtividade agrícola em curto e médio prazos”, alerta Minella Alves de Martins, uma das autoras do estudo. Segundo ela, o aumento da irrigação na bacia do Rio Grande, especialmente na porção sudeste do Matopiba, já consome 90% das retiradas de água, limitando o abastecimento para outros usos e comunidades.
A pesquisa destaca que os problemas vão além do setor agrícola, com possíveis impactos para o abastecimento urbano e para populações ribeirinhas no Piauí e regiões vizinhas. Sem mudanças na gestão hídrica, o consumo excessivo pode comprometer a qualidade e a quantidade da água disponível, afetando as comunidades que dependem dos rios e aquíferos da região para sua subsistência.
Entre as ações sugeridas para amenizar os impactos, o estudo recomenda a revisão das outorgas de água e a intensificação da fiscalização dos recursos hídricos. “As retiradas estão excedendo os limites de outorga e, sem atualização, essas práticas pressionam o ecossistema além do que ele pode suportar,” afirma Minella. O estudo ainda enfatiza a necessidade de monitorar os níveis de poços subterrâneos, especialmente aqueles operados pela Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), e eliminar poços clandestinos.
Outra recomendação crucial do estudo é o acompanhamento das mudanças no uso e cobertura do solo para proteger as áreas de recarga dos aquíferos. “Sem cobertura vegetal, a água da chuva escorre superficialmente, reduzindo a capacidade de reposição dos aquíferos,” explica o texto, frisando que a vegetação ajuda na infiltração de água no solo, mantendo o abastecimento subterrâneo.
O trabalho é parte do projeto Nexus – Caminhos para a Sustentabilidade, coordenado por Jean Ometto do Inpe, e foi realizado em colaboração com o Centro de Resiliência de Estocolmo. Além de Ana Paula Aguiar, idealizadora do estudo, o projeto contou com o suporte da FAPESP e colaboração do cientista Celso von Randow, também do Inpe.
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