
Por que Lula não quer ir ao debate da Globo? Eis uma pergunta que já deixou de ser exclusividade dos adversários. Pelo que se noticia dos bastidores, parece ter chegado também à mesa dos próprios aliados do presidente.
Lula ainda não bateu o martelo sobre sua participação. Seus interlocutores, segundo relatos publicados pela imprensa, defendem que ele compareça. O problema é que o principal resistente seria o próprio presidente.
A justificativa atribuída a Lula é compreensível do ponto de vista eleitoral: ele não gostaria de participar de um modelo no qual responde a uma pergunta, fala durante alguns minutos e depois pode passar um bom tempo sendo questionado pelos demais candidatos.
Ora, mas isso tem outro nome: debate.
Não é jantar de família. Não é entrevista combinada. Não é pronunciamento em cadeia nacional. Não é evento com plateia escolhida a dedo e perguntas previamente conhecidas.
É debate.
E debate, por definição, tem uma característica inconveniente: o adversário também fala.
É justamente aí que a história começa a ficar interessante.
Porque, se o Brasil vive o paraíso econômico que o discurso oficial frequentemente apresenta; se o desemprego está em níveis historicamente baixos; se a inflação está controlada; se a economia navega em águas tranquilas; se as políticas sociais são um sucesso retumbante; se o governo tem uma coleção de realizações para apresentar ao eleitor, então o debate deveria ser uma oportunidade de ouro para Lula.
Seria simples.
Subiria ao palco, apresentaria os números, defenderia seu governo, responderia aos adversários e, de quebra, poderia desmontar as críticas que considera injustas.
Mas existe um pequeno detalhe: ninguém controla o que o outro candidato vai perguntar.
E talvez seja aí que more a verdadeira dificuldade.
Não é possível afirmar que Lula esteja evitando o debate por medo. Isso seria transformar uma decisão política em diagnóstico psicológico — e jornalismo sério não trabalha com adivinhação.
Mas é perfeitamente legítimo perguntar por que um presidente que busca a reeleição hesita diante de um dos maiores palcos eleitorais do país.
Afinal, quem pede ao eleitor mais quatro anos de mandato também deveria estar disposto a ouvir quatro anos de cobranças concentradas em algumas horas.
E há uma ironia adicional.
O presidente, segundo relatos de bastidores, preferiria enfrentar Flávio Bolsonaro diretamente e deixar os demais candidatos fora dessa equação.
Convenhamos: é uma escolha bastante confortável.
Escolher o adversário é muito mais fácil do que aceitar que todos tenham direito a perguntar.
Mas debate presidencial não funciona assim.
E Flávio Bolsonaro parece ter entendido a oportunidade.
O candidato do PL confirmou presença e prepara dois cenários: um com Lula e outro sem Lula.
Se Lula comparecer, haverá confronto direto.
Se não comparecer, a cadeira vazia poderá ganhar vida própria.
Flávio poderá falar para o púlpito vazio, explorar a ausência e produzir exatamente aquilo que hoje domina a política: cortes para as redes sociais.
É a política do século XXI: às vezes, uma cadeira vazia rende mais audiência do que um discurso de meia hora.
Só que há uma segunda ironia.
Se Lula não aparecer, Flávio não terá necessariamente uma noite tranquila. Sem o presidente no palco, ele poderá se tornar o alvo preferencial dos demais candidatos.
E aí vem a velha regra da política: quando o principal adversário não está presente, alguém precisa ocupar o lugar do saco de pancadas.
Caiado e Cury estarão no debate. E nenhum candidato que disputa a Presidência pode imaginar que subirá ao palco apenas para fazer figuração.
Portanto, a ausência de Lula pode ajudar Flávio a explorar politicamente a cadeira vazia, mas também pode transformar o próprio candidato do PL em alvo coletivo.
É o tipo de situação em que ninguém sai exatamente ileso.
Mas há algo ainda maior em jogo.
Lula é presidente da República.
Não está disputando uma eleição para vereador, deputado ou prefeito. Está pedindo ao eleitor brasileiro que lhe entregue novamente o comando do país.
E quem pretende governar mais quatro anos precisa explicar o que fez nos quatro anteriores.
Precisa responder sobre economia.
Precisa responder sobre impostos.
Precisa responder sobre segurança.
Precisa responder sobre saúde.
Precisa responder sobre corrupção, gastos públicos, educação, infraestrutura e tantas outras questões que não desaparecem simplesmente porque o candidato decidiu não participar de um debate.
O eleitor não tem obrigação de facilitar a vida de candidato algum.
Muito menos do presidente.
Por isso, a pergunta permanece incômoda: se Lula tem tantas conquistas para apresentar, por que não aproveita justamente o debate para apresentá-las?
Se os números são tão bons, mostre os números.
Se a economia está tão forte, explique-a.
Se as críticas são falsas, desmonte-as.
Se os adversários estão errados, corrija-os.
Se o governo é tão bom quanto afirma, não deveria ser necessário esconder-se atrás de uma agenda, de uma estratégia ou de uma cadeira vazia.
Mas existe uma diferença importante entre não ter obrigação legal de participar e não ter obrigação política de prestar contas.
A primeira é uma questão de regra eleitoral.
A segunda é uma questão de responsabilidade pública.
E talvez seja por isso que a possível ausência esteja produzindo tanto barulho.
Porque, em uma eleição apertada, o silêncio também comunica.
E, quando milhões de brasileiros estiverem diante da televisão, poderão existir vários candidatos no palco.
Mas, se Lula não aparecer, haverá uma personagem adicional naquela noite:
a cadeira vazia.
E, dependendo do que acontecer, ela poderá falar mais alto do que muita gente imaginava.
No fim das contas, talvez a grande pergunta da noite não seja quem venceu o debate.
Talvez seja outra:
por que o presidente que quer mais quatro anos no Palácio do Planalto não quis enfrentar, por algumas horas, as perguntas daqueles que decidirão se ele continuará lá?
ELEIÇÕES 2026 Joel confronta Rafael em debate sobre falta d’água e governador tenta jogar responsabilidade nos prefeitos
CRISE MASTER O tsunami Vorcaro chega ao coração do poder
CORRIDA PRESIDENCIAL Pesquisa Gerp coloca Flávio à frente de Lula no 1º turno e abre vantagem de 7 pontos no 2º Mín. 25° Máx. 40°