
É impressionante a distância que pode existir entre o discurso político e a realidade medida pelas pesquisas. Na avaliação do deputado estadual Francisco Limma, do PT do Piauí, eventuais oscilações na popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva não devem produzir efeitos relevantes sobre o desempenho eleitoral da base governista no Estado. Limma sustenta que Lula continua com forte aprovação no Nordeste e que as pesquisas podem variar ao longo da disputa.
Há, de fato, elementos que sustentam parte dessa avaliação. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em maio apontava 63% de aprovação de Lula no Nordeste contra 33% de desaprovação, mantendo a região como a única em que a aprovação do presidente superava a rejeição. Portanto, afirmar que o presidente perdeu completamente sua força no Nordeste seria incorreto.
O problema está em transformar esse dado em uma fotografia permanente do eleitorado. A eleição de 2026 ainda está em movimento, e pesquisas diferentes mostram oscilações importantes. O levantamento CNT/MDA divulgado nesta terça-feira (11), por exemplo, coloca Lula com 42,4% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28,7% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, Lula aparece à frente, mas a disputa permanece aberta em termos políticos.
É justamente aí que a declaração de Limma merece ser analisada com mais cuidado. O Nordeste continua sendo um dos principais pilares eleitorais de Lula, mas isso não significa que a região esteja imune às mudanças de humor do eleitorado. Uma eleição presidencial é resultado da soma de Estados, regiões, segmentos sociais e circunstâncias econômicas e políticas que podem mudar rapidamente.
E há uma contradição interessante dentro do próprio campo petista. Enquanto Limma minimiza o impacto das oscilações e sustenta que Lula permanece muito bem posicionado no Nordeste, José Dirceu, um dos mais importantes nomes históricos do PT, já reconheceu que a eleição será decidida no Sudeste. Em entrevista à CNN, Dirceu afirmou que o partido precisa concentrar esforços na região e lembrou que foi justamente ali que ocorreram perdas importantes de votos nas eleições anteriores.
Dirceu, portanto, parece enxergar a eleição com uma dose maior de realismo estratégico. Não porque considere Lula derrotado, mas porque sabe que a força do presidente no Nordeste, isoladamente, não garante uma reeleição. O Sudeste concentra parcela decisiva do eleitorado nacional e pode determinar a diferença entre vitória e derrota em uma disputa apertada.
Isso explica por que a fala de Dirceu é politicamente mais reveladora do que uma simples declaração de campanha. O PT não trabalha com a ideia de uma eleição ganha. O próprio ex-ministro afirmou que o partido nunca teve a ilusão de que a reeleição estivesse assegurada.
No Piauí, entretanto, o cenário possui uma particularidade. A força eleitoral de Lula não deve ser confundida automaticamente com a transferência integral dessa força para todos os candidatos apoiados pelo PT. O eleitor pode votar em Lula para presidente e, ao mesmo tempo, escolher candidatos diferentes nas disputas para governador, Senado, Câmara ou Assembleia.
É nesse ponto que a avaliação de Limma precisa ser submetida ao teste das urnas. A popularidade presidencial pode ajudar a puxar candidaturas, mas não elimina disputas locais, avaliações de governo, rejeições individuais, alianças regionais e problemas específicos de cada eleição.
Também é preciso reconhecer que os dados disponíveis não autorizam a afirmação de que Lula esteja simplesmente “despencando” no Nordeste. Há pesquisas que mostram desgaste, mas há outras que registram recuperação ou manutenção de ampla vantagem na região. A pesquisa Genial/Quaest de maio, por exemplo, mostrava 63% de aprovação no Nordeste, enquanto levantamentos estaduais mais recentes também registraram índices elevados em alguns Estados. No Ceará, pesquisa Real Time Big Data divulgada em julho apontou 68% de aprovação.
O cenário, portanto, é mais complexo do que a narrativa de queda livre ou de popularidade inabalável. Lula continua competitivo e forte no Nordeste, mas enfrenta uma eleição nacional que será decidida também onde sua aprovação é menor.
E é justamente essa a diferença entre uma leitura eleitoral baseada em torcida e uma análise baseada em estratégia. O PT sabe que não basta repetir que Lula é forte no Nordeste. José Dirceu já está dizendo, explicitamente, que o partido precisa conquistar espaço no Sudeste.
Para o Piauí, a questão será saber quanto dessa força presidencial poderá ser efetivamente convertida em votos para os candidatos da base governista. Limma aposta na continuidade da influência de Lula. Dirceu, ao olhar o mapa nacional, parece preocupado com outro problema: como transformar uma vantagem regional em maioria nacional.
A eleição ainda está longe de estar decidida. E talvez essa seja justamente a principal conclusão a ser extraída das duas declarações. Quem trata a disputa como ganha corre o risco de não perceber a eleição que está diante dos próprios olhos.
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