
A ressocialização de quem cumpriu pena é um dos pilares de qualquer sociedade que se pretenda civilizada. Ninguém sério defende que um cidadão deva carregar para sempre o peso de um erro cometido no passado. Quem pagou sua dívida com a Justiça merece uma oportunidade de reconstruir a própria vida.
O problema é que a lei sancionada pelo governador Rafael Fonteles não trata apenas de ressocialização. Ela representa mais um capítulo de uma prática cada vez mais comum no Brasil: o Estado transfere suas responsabilidades para a iniciativa privada.
É preciso separar as coisas.
Uma empresa decidir contratar um egresso do sistema prisional por acreditar em sua recuperação é um gesto legítimo, louvável e que deve ser respeitado. Outra realidade completamente diferente é o Estado impor essa contratação por força de lei como condição para que empresas prestem serviços à administração pública.
A primeira hipótese é liberdade.
A segunda é imposição.
Se o próprio governo considera essa política tão importante, surge uma pergunta inevitável: por que não lidera pelo exemplo?
Por que o Estado não amplia programas próprios de reinserção profissional? Por que não investe em oficinas, empresas públicas, cooperativas, cursos de qualificação e projetos permanentes voltados à empregabilidade dos egressos? Em vez disso, opta pelo caminho mais fácil: cria uma obrigação para quem produz riqueza, gera empregos e paga impostos.
Mais uma vez, o Estado transfere o custo de uma política pública para quem empreende.
A crítica da classe produtiva não nasce da falta de sensibilidade social. Ela decorre da constatação de que as empresas brasileiras já suportam uma das maiores cargas tributárias e burocráticas do mundo. Agora, além de produzir, empregar, recolher tributos e enfrentar um ambiente econômico hostil, passam a assumir mais uma responsabilidade que deveria ser prioritariamente estatal.
Existe ainda outro aspecto que merece reflexão.
Milhões de brasileiros jamais cometeram qualquer crime e enfrentam anos de desemprego. Jovens procuram o primeiro emprego sem sucesso. Pais e mães de família entregam currículos diariamente e não encontram oportunidades. Pessoas honestas lutam para sobreviver dentro da lei.
Quando o Estado cria uma política específica para determinado grupo, inevitavelmente estabelece prioridades. E é exatamente aí que reside a controvérsia.
A discussão não é sobre retirar direitos de quem deseja recomeçar. A discussão é sobre o critério utilizado pelo poder público para definir quem deve receber tratamento preferencial em determinadas políticas.
Também não se pode ignorar um efeito colateral. Ainda que não tenha sido essa a intenção do legislador, parte da sociedade pode interpretar esse tipo de medida como um sinal de que o Estado dedica atenção especial a quem infringiu a lei, enquanto milhões de cidadãos que sempre cumpriram suas obrigações continuam esquecidos. Essa percepção ajuda a explicar a forte reação popular à proposta.
Ressocializar é necessário.
Mas ressocializar não significa transferir ao empresário aquilo que compete ao Estado.
Uma política pública eficiente deveria combinar educação, qualificação profissional, acompanhamento psicológico, combate às drogas, apoio às famílias e incentivos — nunca imposições — para que empresas participem desse processo.
A diferença entre incentivo e obrigação é enorme.
Incentivar é construir parcerias.
Obrigar é terceirizar responsabilidades.
O governo afirma que pretende reduzir a reincidência criminal. Trata-se de um objetivo legítimo. Contudo, bons objetivos não tornam automaticamente bons os instrumentos escolhidos para alcançá-los.
O Estado existe justamente para enfrentar problemas complexos. Quando passa a responder a esses desafios impondo deveres crescentes à iniciativa privada, transmite a impressão de que prefere legislar sobre o esforço alheio a executar diretamente aquilo que lhe cabe.
A ressocialização precisa acontecer. Mas deve começar pelo próprio Estado, e não terminar na porta da empresa privada.
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