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Jet-ski de madeira: agora dá para entender por que Santos Dumont foi inventar na França; vídeo

Criatividade viraliza, burocracia aparece. O caso do jet-ski de madeira expõe um velho problema brasileiro: o país que aplaude inventores depois de tentar enquadrá-los

25/06/2026 às 04h05
Por: Douglas Ferreira
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Cristiano Gonçalves, morador de Abaetetuba, e seu jet ski de madeira - Foto: Reprodução
Cristiano Gonçalves, morador de Abaetetuba, e seu jet ski de madeira - Foto: Reprodução

Não é de hoje. Não começou agora. E talvez seja justamente por isso que a história do jet-ski de madeira tenha provocado tanta revolta nas redes sociais.

Ela toca numa ferida antiga do Brasil.

Aliás, 123 anos depois, talvez finalmente dê para entender por que Santos Dumont precisou atravessar o oceano e desenvolver seus experimentos na França. Talvez agora fique mais fácil compreender por que o pai da aviação escolheu Paris para voar e não o Rio de Janeiro.

Porque no Brasil, muitas vezes, o inventor não encontra incentivo. Encontra desconfiança.

Primeiro vem a curiosidade. Depois a fiscalização. Em seguida, a papelada. E, dependendo do caso, a suspeita.

O brasileiro Cristiano Gonçalves, morador de Abaetetuba, no Pará, constrói um jet-ski de madeira com as próprias mãos, viraliza na internet, desperta admiração no país inteiro e, antes mesmo de receber um prêmio pela criatividade, passa a ter que explicar à Marinha como navega e ao Ibama de onde veio cada pedaço de madeira.

Claro que existem leis. Claro que existe fiscalização. Claro que segurança náutica e proteção ambiental são necessárias.

Mas o ponto não é esse.

O ponto é que o Brasil parece possuir um talento especial para transformar inventores em investigados.

Enquanto outros países criam programas para estimular a inovação, oferecer crédito, apoio técnico e transformar boas ideias em negócios, por aqui o sujeito muitas vezes precisa provar que não é criminoso antes mesmo de ser reconhecido como criador.

E isso não é uma crítica à Marinha ou ao Ibama.

É uma crítica a uma cultura burocrática que há décadas trata a criatividade como um problema administrativo.

O caso do jet-ski de madeira virou símbolo exatamente por isso.

O inventor afirma que comprou a madeira legalmente. Diz possuir documentação. Garante que tudo pode ser comprovado.

Se for verdade, ótimo.

Mas a pergunta que ficou no ar foi outra.

O que teria acontecido se esse mesmo cidadão tivesse nascido nos Estados Unidos, no Japão, na Coreia do Sul ou na Alemanha?

Provavelmente alguém estaria perguntando como transformar a invenção em produto.

No Brasil, a pergunta parece ser: "cadê a documentação?"

É o país que reclama da falta de inovação, mas frequentemente dificulta a vida de quem tenta inovar.

É o país que sonha com uma nova revolução tecnológica, mas muitas vezes sufoca o pequeno inventor que surge na garagem, no quintal ou na oficina improvisada.

A ironia é que o brasileiro adora contar a história de Santos Dumont.

Mas, na prática, continua tratando muitos Santos Dumont contemporâneos como se fossem um problema a ser fiscalizado.

O jet-ski de madeira talvez nem seja uma revolução tecnológica.

Talvez seja apenas uma curiosidade.

Mas a reação em torno dele revelou algo muito maior.

Revelou um Brasil que continua desconfiando mais de quem cria do que admirando quem inventa.

E isso explica muita coisa.

Explica por que tantos talentos vão embora.

Explica por que tantas ideias morrem antes de nascer.

E explica por que, mais de um século depois, ainda continuamos discutindo burocracia quando deveríamos estar discutindo inovação.

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