Domingo, 28 de Junho de 2026
26°

Tempo nublado

Teresina, PI

Empreendedorismo TMF GROUP

Brasil vira “roleta-russa” empresarial e entra no top 3 dos países mais difíceis para empreender

Carga tributária elevada, excesso de burocracia, insegurança jurídica e mudanças constantes nas regras colocam o Brasil entre os ambientes de negócios mais complexos do planeta

23/05/2026 às 14h12
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
O Brasil está abaixo da Colômbia, Bolívia e Peru no ranking - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA
O Brasil está abaixo da Colômbia, Bolívia e Peru no ranking - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA

Brasil entre os piores países para empreender: acaso ou consequência?

Empreender no Brasil nunca foi tarefa simples. Para muitos empresários, abrir ou manter uma empresa no país se assemelha a uma verdadeira “roleta-russa” empresarial: investe-se muito, enfrenta-se uma avalanche de impostos, burocracias e inseguranças, mas sem qualquer garantia de estabilidade ou sucesso. Em alguns momentos, a sensação transmitida ao empreendedor é a de que o próprio Estado atua mais como obstáculo do que como parceiro do desenvolvimento econômico.

Não por acaso, o Brasil voltou ao grupo dos três países mais complexos do mundo para fazer negócios, segundo o Índice Global de Complexidade de Negócios (GBCI), elaborado pela TMF Group.

O que avaliou o ranking?

O estudo analisou 81 jurisdições responsáveis por mais de 90% da economia mundial. Entre os critérios observados estão:

  • Complexidade tributária;
  • Regras trabalhistas;
  • Exigências contábeis;
  • Custos de compliance;
  • Processos de abertura de empresas;
  • Licenciamento;
  • Segurança regulatória;
  • Relação entre normas federais, estaduais e municipais.

Em 2026, os países mais complexos para empreender foram:

  1. Grécia
  2. México
  3. Brasil
  4. França
  5. Turquia
  6. Colômbia
  7. Bolívia
  8. Itália
  9. Argentina
  10. Peru

O dado chama atenção porque o Brasil havia melhorado ligeiramente nos últimos anos, mas voltou a subir no ranking negativo devido ao aumento da complexidade regulatória e das mudanças nas regras econômicas.

O “manicômio tributário” brasileiro

A expressão “manicômio tributário” não surgiu por acaso. O sistema tributário brasileiro é considerado um dos mais difíceis do planeta. Empresas convivem simultaneamente com impostos federais, estaduais e municipais, além de inúmeras obrigações acessórias, declarações, taxas e interpretações legais distintas.

Muitas vezes, uma empresa precisa manter departamentos inteiros apenas para lidar com burocracia tributária. O custo para permanecer em conformidade legalmente é gigantesco, especialmente para pequenos e médios empreendedores.

Além disso, mudanças frequentes nas regras criam insegurança. O empresário investe sem saber exatamente como será o ambiente regulatório poucos meses depois.

Reforma tributária: simplificação ou nova complexidade?

A reforma tributária foi apresentada como solução histórica para simplificar impostos e destravar a economia. Entretanto, embora ainda não esteja totalmente implementada, o novo modelo já levanta dúvidas e preocupações no setor produtivo.

Especialistas apontam que o período de transição tende a aumentar ainda mais a insegurança jurídica e operacional, pois empresas precisarão conviver simultaneamente com sistemas antigos e novos durante vários anos.

O próprio estudo da TMF Group reconhece que as mudanças, embora necessárias, acabaram criando novas camadas de adaptação e complexidade no curto prazo.

O governo atrapalha o empreendedor?

Essa é uma pergunta cada vez mais presente no debate econômico brasileiro. Parte do empresariado reclama de:

  • excesso de regulamentação;
  • elevada carga tributária;
  • insegurança jurídica;
  • lentidão estatal;
  • dificuldade para contratar;
  • custos trabalhistas elevados;
  • instabilidade política e econômica.

Ao mesmo tempo, defensores do modelo brasileiro argumentam que muitos desses mecanismos existem para garantir arrecadação, direitos trabalhistas e proteção social.

O problema é que, na prática, o empreendedor frequentemente se vê pressionado por todos os lados: impostos altos, crédito caro, burocracia excessiva e baixo retorno.

Nem tudo é retrocesso

Apesar das dificuldades, o estudo também reconhece avanços importantes no Brasil, principalmente na digitalização de processos. Ferramentas como:

  • assinatura eletrônica;
  • emissão digital de documentos;
  • registros online;
  • sistemas integrados;

têm reduzido parte da burocracia e acelerado procedimentos.

Ainda assim, o desafio estrutural permanece enorme.

O grande dilema brasileiro

O Brasil possui um mercado consumidor gigantesco, abundância de recursos naturais e enorme potencial econômico. Porém, continua travado por uma estrutura estatal pesada, complexa e frequentemente contraditória.

O resultado é um paradoxo: um país rico em oportunidades, mas extremamente difícil para quem deseja produzir, investir e gerar empregos.

Talvez o verdadeiro problema não seja a falta de talento do empreendedor brasileiro, reconhecido mundialmente pela criatividade e capacidade de adaptação, mas sim o ambiente hostil em que ele é obrigado a atuar.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários