
Empreender no Brasil nunca foi tarefa simples. Para muitos empresários, abrir ou manter uma empresa no país se assemelha a uma verdadeira “roleta-russa” empresarial: investe-se muito, enfrenta-se uma avalanche de impostos, burocracias e inseguranças, mas sem qualquer garantia de estabilidade ou sucesso. Em alguns momentos, a sensação transmitida ao empreendedor é a de que o próprio Estado atua mais como obstáculo do que como parceiro do desenvolvimento econômico.
Não por acaso, o Brasil voltou ao grupo dos três países mais complexos do mundo para fazer negócios, segundo o Índice Global de Complexidade de Negócios (GBCI), elaborado pela TMF Group.
O estudo analisou 81 jurisdições responsáveis por mais de 90% da economia mundial. Entre os critérios observados estão:
Em 2026, os países mais complexos para empreender foram:
O dado chama atenção porque o Brasil havia melhorado ligeiramente nos últimos anos, mas voltou a subir no ranking negativo devido ao aumento da complexidade regulatória e das mudanças nas regras econômicas.
A expressão “manicômio tributário” não surgiu por acaso. O sistema tributário brasileiro é considerado um dos mais difíceis do planeta. Empresas convivem simultaneamente com impostos federais, estaduais e municipais, além de inúmeras obrigações acessórias, declarações, taxas e interpretações legais distintas.
Muitas vezes, uma empresa precisa manter departamentos inteiros apenas para lidar com burocracia tributária. O custo para permanecer em conformidade legalmente é gigantesco, especialmente para pequenos e médios empreendedores.
Além disso, mudanças frequentes nas regras criam insegurança. O empresário investe sem saber exatamente como será o ambiente regulatório poucos meses depois.
A reforma tributária foi apresentada como solução histórica para simplificar impostos e destravar a economia. Entretanto, embora ainda não esteja totalmente implementada, o novo modelo já levanta dúvidas e preocupações no setor produtivo.
Especialistas apontam que o período de transição tende a aumentar ainda mais a insegurança jurídica e operacional, pois empresas precisarão conviver simultaneamente com sistemas antigos e novos durante vários anos.
O próprio estudo da TMF Group reconhece que as mudanças, embora necessárias, acabaram criando novas camadas de adaptação e complexidade no curto prazo.
Essa é uma pergunta cada vez mais presente no debate econômico brasileiro. Parte do empresariado reclama de:
Ao mesmo tempo, defensores do modelo brasileiro argumentam que muitos desses mecanismos existem para garantir arrecadação, direitos trabalhistas e proteção social.
O problema é que, na prática, o empreendedor frequentemente se vê pressionado por todos os lados: impostos altos, crédito caro, burocracia excessiva e baixo retorno.
Apesar das dificuldades, o estudo também reconhece avanços importantes no Brasil, principalmente na digitalização de processos. Ferramentas como:
têm reduzido parte da burocracia e acelerado procedimentos.
Ainda assim, o desafio estrutural permanece enorme.
O Brasil possui um mercado consumidor gigantesco, abundância de recursos naturais e enorme potencial econômico. Porém, continua travado por uma estrutura estatal pesada, complexa e frequentemente contraditória.
O resultado é um paradoxo: um país rico em oportunidades, mas extremamente difícil para quem deseja produzir, investir e gerar empregos.
Talvez o verdadeiro problema não seja a falta de talento do empreendedor brasileiro, reconhecido mundialmente pela criatividade e capacidade de adaptação, mas sim o ambiente hostil em que ele é obrigado a atuar.
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