
O abusador sexual não anda pelas ruas com uma placa pendurada no peito. O pedófilo não traz uma faixa na testa avisando quem é. E é justamente por isso que toda sociedade precisa permanecer em estado permanente de vigilância quando crianças estão sob a responsabilidade de adultos, seja diretor de escola, treinador esportivo, professor, cuidador ou gestor de creche.
O caso que chocou Timon, na Grande Teresina, escancara exatamente essa realidade. Alberto Luiz Freitas Monção, de 49 anos, vice-diretor de uma creche municipal, foi preso preventivamente suspeito de abusar sexualmente de crianças de apenas dois e três anos dentro da própria unidade escolar. Segundo a Polícia Civil, ele escolhia preferencialmente crianças autistas ou com dificuldade de verbalização, justamente por terem mais dificuldade de denunciar os abusos.
A denúncia começou após familiares perceberem dores e sinais incomuns em uma das vítimas. A partir daí, a polícia iniciou diligências e analisou imagens das câmeras de segurança da creche. As investigações apontam que o suspeito retirava as crianças das salas e as levava para um depósito localizado dentro da diretoria, um local sem monitoramento.
E aqui surge um detalhe assustador: segundo a investigação, a câmera que existia no local teria sido retirada pelo próprio investigado após assumir a função. Ou seja, não se tratava de algo improvisado ou impulsivo. Havia método, preparação e escolha estratégica de um ambiente isolado.
Vídeos analisados pela polícia mostram o diretor conduzindo crianças até o depósito, onde permanecia por alguns minutos. Uma testemunha considerada fundamental chegou a questioná-lo repetidamente sobre o motivo de retirar os alunos das salas de aula.
Até o momento, três vítimas já foram identificadas, mas a polícia acredita que o número pode ser maior. O material apreendido segue sob perícia.
O episódio levanta uma pergunta inevitável: como um homem investigado agora por pedofilia ocupava justamente um cargo de direção dentro de uma creche infantil?
É impossível não questionar quais foram os critérios utilizados para colocá-lo numa função tão sensível. Afinal, quem trabalha diretamente com crianças deveria passar por avaliações rigorosas, acompanhamento psicológico e filtros muito mais profundos do que simples indicação política ou análise burocrática de currículo.
A Prefeitura de Timon informou que exonerou o diretor-adjunto, afastou toda a direção da unidade e decretou intervenção imediata na creche. A medida era necessária. Mas chegou tarde. O dano já foi provocado.
E o mais preocupante: este não é o primeiro caso semelhante envolvendo estruturas públicas municipais. Isso demonstra que não basta apenas afastar o acusado depois da tragédia. O poder público precisa agir antes.
O caso evidencia a necessidade urgente de criação de protocolos específicos para contratação de profissionais que atuarão diretamente com crianças. Equipes multidisciplinares, acompanhamento psicológico, investigação social e avaliação contínua deveriam ser regra obrigatória.
Porque quando o assunto é infância, prevenção vale mais do que qualquer discurso posterior.
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