
O avanço do narcotráfico e das milícias no Brasil atingiu um patamar crítico, rivalizando diretamente com o Estado pelo domínio territorial em capitais como Rio de Janeiro e Fortaleza. Nessas regiões, o terror implantado pelas facções impõe um exílio forçado a famílias, cerceia o direito de ir e vir e segrega comunidades inteiras.
Historicamente criticado por uma postura considerada leniente, com episódios marcantes como a visita do então ministro Flávio Dino ao complexo da Maré no início da terceira gestão de Lula e as reuniões de assessores com interlocutores de lideranças criminosas, o governo federal se viu obrigado a reagir. Agora, no anoitecer de seu mandato e às vésperas das eleições gerais de 2026, o presidente Lula anunciou o programa *Brasil Contra o Crime Organizado*, uma ofensiva que prevê investimentos de R$ 11,1 bilhões.
O Pacote de R$ 11 Bilhões:
Apresentado por Lula ao lado do ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, o pacote tenta equilibrar a tradicional abordagem progressista, focada em inteligência, com o clamor popular por medidas mais rígidas.
Do montante total, R$ 1,06 bilhão carimba recursos diretos do Orçamento da União para 2026, enquanto R$ 10 bilhões correm por linhas de crédito do BNDES para estados e municípios. O plano avança em quatro eixos estratégicos:
Asfixia Financeira com foco em rastreamento, Fortalecimento do Sistema Prisional para isolar lideranças. Esclarecimento de Homicídios com a modernização de perícias, melhoria de Institutos Médico-Legais e ampliação de bancos de perfis genéticos. Combate ao Tráfico de Armas com a Criação da Rede Nacional de Enfrentamento do Tráfico de Armas e maior controle das fronteiras. Além das verbas, o programa traz um forte componente institucional ao exigir o compartilhamento obrigatório de dados de segurança entre estados e União, centralizando as informações de inteligência penal.
A Ilusão das Cifras e o Gargalo do Calendário
Apesar do impacto inicial provocado pelos R$ 11,1 bilhões, especialistas em segurança e finanças públicas alertam que o montante é uma fração modesta diante do monstro a ser enfrentado. O crime organizado no Brasil deixou de ser uma atividade local e se transformou em uma holding transnacional multimilionária, infiltrada no futebol, na política e no empresariado, movimentando quantias que anulam o poder financeiro do plano estatal.
Há, ainda, o fator tempo. Como as autoridades pretendem executar um projeto dessa magnitude com o calendário eleitoral batendo à porta? Com as convenções partidárias e as restrições da Lei Eleitoral se aproximando, os prazos legais para empenho, repasse e aplicação de verbas públicas são extremamente curtos.
A insuficiência e o atraso do pacote evidenciam o custo de anos de omissão. Esse monstro não cresceu por acaso, foi alimentado pela leniência do poder público e por uma dependência histórica de manutenção do poder político a qualquer custo.
A contaminação de territórios pela criminalidade muitas vezes serviu a currais eleitorais e a interesses velados, onde a ausência do Estado abriu espaço para o assistencialismo das facções. Financiar a segurança de forma reativa, apenas quando o cenário se torna politicamente insustentável, reforça a tese de que o foco sempre esteve na sobrevivência eleitoral, e não no desmonte real das estruturas criminosas.
As Duas Pressões Que Forçaram a Reação do Planalto
A pergunta inevitável que ecoa entre analistas e eleitores é clara: por que as autoridades envolvidas só desenharam uma reação desse porte na reta final do governo, às vésperas das eleições? Duas pressões principais ditam o ritmo dessa movimentação tardia:
Primeiro a urgência das urnas de 2026. A segurança pública é a principal vulnerabilidade política da esquerda brasileira e um tema onde a oposição tradicionalmente domina o debate com discursos de tolerância zero. Ao lançar um pacote bilionário neste momento, o Planalto tenta neutralizar as críticas de inércia, ocupar espaço na agenda midiática e oferecer uma resposta ao eleitorado moderado, que coloca a violência urbana no topo de suas preocupações.
Depois, o fator geopolítico e a Pressão dos EUA. A dimensão transnacional do crime organizado brasileiro transformou o problema em uma questão de política externa. No início de maio, o presidente Lula reuniu-se em Washington com o presidente norte-americano Donald Trump. O combate às facções, que os EUA pretendem classificar como organizações terroristas, e o rastreamento de armas e lavagem de dinheiro foram pautas centrais. O governo brasileiro entregou um documento com propostas de atuação conjunta e cobrou cooperação para a extradição de investigados que operam a partir de solo americano, como em Miami. Essa é uma questão mais política eleitoral do que uma ação concreta de combate ao crime organizado, já que em nada resulta na prática, pois é notória a vontade do governo em fazer aparecer na mídia ação contra desafetos políticos.
Fica evidente que o reflexo da crise de segurança brasileira nas rotas internacionais gerou cobranças diretas de Washington, acelerando a necessidade do governo federal demonstrar controle sobre o próprio território.
Conclusão: Política de Estado ou Retórica Eleitoral?
O sucesso do Brasil contra o crime organizado dependerá estritamente da capacidade de execução prática das medidas e da real adesão dos governos estaduais, que comandam as polícias na ponta e criticam a centralização federal proposta pela PEC da Segurança Pública.
Embora o pacote tente mudar a postura do governo federal no debate, ele corre contra o relógio e contra a desconfiança pública. Resta saber se o plano será percebido pela sociedade como uma política de Estado sustentável ou se será carimbado em definitivo como uma reação tardia, oportunista e de caráter puramente eleitoreiro.
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