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O espelho do poder: entre os “Bacuraus” de ontem e os “Rafaboys” de hoje

Do “timezinho” dos Bacuraus à tecnocracia dos Rafaboys: mesma exclusão, nova roupagem

03/05/2026 às 08h14 Atualizada em 03/05/2026 às 11h03
Por: Arthur Feitosa
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Imagem: Reprodução
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​O tempo é um editor implacável. Ele não apenas registra os fatos, mas submete as palavras do passado ao tribunal do presente. No Piauí, um vídeo resgatado das profundezas dos arquivos políticos traz à tona a voz de Nazareno Fonteles, então deputado federal e ícone do petismo histórico. Na gravação, Nazareno disparava contra o que chamava de "câncer do Piauí": uma elite perversa, um "timezinho elitizado" que se apropriava da máquina pública enquanto pregava governar para o povo.​

O alvo de Nazareno tinha nome e sobrenome: os "Bacuraus". O grupo, gravitando em torno do ex-governador Hugo Napoleão, era o símbolo máximo do que o PT combatia, um círculo fechado de parentes e aliados com chaves de cofres e portas abertas por mera linhagem. Ironicamente, décadas depois, o discurso de Nazareno parece ter se transformado em uma profecia que hoje assombra o Palácio de Karnak, agora sob o comando de seu filho, Rafael Fonteles.​

A Metamorfose da Elite é quase como um castigo por obra do divino. ​A crítica de Nazareno tinha coerência interna e peso moral. Ele denunciava a privatização do poder. No entanto, o Piauí de 2023 adiante, assiste a uma versão atualizada e tecnocrática desse mesmo fenômeno. Onde antes liam-se "Bacuraus", hoje lemos "Rafaboys".​

O termo, que se popularizou nos bastidores da capital, descreve o núcleo duro do governo estadual: um grupo formado majoritariamente por ex-alunos do Colégio Dom Barreto, instituição que é o epicentro da elite intelectual e econômica de Teresina. Não se questiona aqui o currículo ou a capacidade técnica desses jovens secretários e assessores. O que se questiona é a geometria do poder. ​A denúncia de Nazareno contra o "timezinho que se apropria do recurso" encontra um eco desconfortável na atual gestão. Se os Bacuraus eram a elite da herança, os Rafaboys são a elite do diploma de grife. Ambos, contudo, compartilham a mesma característica: a exclusividade. O poder mudou de mãos, mas não mudou de endereço social.​

O poder no estado é exercido num círculo fechado onde só entra quem é "rafaboy" ou amigo "que carrega a mala" além de parentes e aderentes. Aos demais aliados, as sobras.​

A grande ironia que "queima a língua" da linhagem Fonteles é a ampliação desse poder. Enquanto os Bacuraus eram criticados por uma influência política e de prestígio, os Rafaboys ocupam posições estratégicas como ordenadores de despesas e gestores diretos. Eles não apenas influenciam; eles executam, controlam e decidem os rumos financeiros do estado sob uma redoma de confiança pessoal que remete diretamente aos privilégios atacados pelo PT no passado.​

O que vemos é a substituição de uma oligarquia tradicional por uma aristocracia escolar. Para o cidadão comum, a diferença é meramente estética. O acesso ao primeiro escalão continua passando por filtros que a grande maioria da população piauiense jamais terá chance de atravessar.​

E o povo entre o aplauso pidão e a inércia de não poder fazer nada, assiste a tudo em silêncio. Nada muda, exceto para quem conseguiu romper a barragem de bacuraus para nela se afogar em algodões. ​O ponto mais melancólico dessa repetição histórica é a reação popular. Parte da sociedade assiste inerte, enquanto outra parte aplaude, seduzida pela embalagem de "modernidade" e "gestão eficiente" que a comunicação oficial vende com maestria. É o triunfo da forma sobre o conteúdo: celebra-se a "juventude preparada" no poder, sem perceber que essa mesma juventude é o braço executivo de uma estrutura que mantém o povo como mero espectador.​

A política piauiense parece ter dado um salto para permanecer no mesmo lugar. O "câncer" que Nazareno e o PT apontava nos outros parece ter sofrido uma mutação, tornando-se mais apresentável, mais técnico e mais sofisticado, mas mantendo a mesma essência excludente.

​Ao fim e ao cabo, o vídeo de Nazareno Fonteles não é apenas uma peça de museu. É um espelho que, se colocado diante do atual governo, reflete uma imagem que o Karnak preferiria esquecer. O Piauí trocou o "timezinho" de Hugo pelo "timezinho" de Rafael. E o povo, como sempre, continua do lado de fora da sala de aula, esperando que as migalhas da eficiência cheguem à ponta, onde a elite, seja ela de berço ou de beca, raramente pisa.

Confira o vídeo que me refiro:

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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