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O show do escárnio: Entre o Piauí dos “Rafaboys” e o Piauí que pede socorro

Entre decisões sob suspeita e prioridades invertidas, o contraste entre o Piauí da vitrine e o Piauí da escassez expõe um governo pressionado pela própria narrativa

29/04/2026 às 08h00 Atualizada em 29/04/2026 às 09h29
Por: Arthur Feitosa
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Imagem gerada por inteligência artificial
Imagem gerada por inteligência artificial

​Em uma semana em que o Piauí assistiu a um verdadeiro festival de manobras jurídicas e narrativas ensaiadas, a sensação que fica para o cidadão comum não é a de celebração, mas a de um profundo e doloroso escárnio. Enquanto as luzes do palco de Alok brilhavam sob o patrocínio da dúvida, as torneiras de milhares de piauienses continuavam secas e as prateleiras das farmácias públicas, vazias. O que vimos não foi apenas um show; foi a radiografia de um governo que padece de uma inversão de prioridades quase patológica.

​A Justiça sob Encomenda e o "Padrinho" Político

​É preciso dar nome aos bois: a mobilização da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) para garantir um evento de entretenimento foi uma das demonstrações mais explícitas de uso da máquina pública para fins privados dos últimos tempos. Quando o Estado move montanhas jurídicas, atropelando decisões de primeira e segunda instâncias que visavam proteger o erário, para satisfazer o capricho de uma agenda midiática, ele deixa de servir ao povo para servir ao ego do governante.

​A reversão da proibição do show, assinada no limite do prazo por um desembargador recém-chegado ao cargo por indicação direta de Rafael Fonteles, não é apenas uma "coincidência" jurídica; é um sintoma. Como esperar isenção quando a caneta que decide sobre o dinheiro do povo é segurada por alguém que deve sua ascensão ao "padrinho" que pede o favor? O Piauí não assistiu a um rito judicial, mas a uma encenação de poder onde as regras do jogo parecem escritas para favorecer apenas um lado: o do governo.

​O Piauí Real: Entre a Sede e a Falta de Remédio

​Enquanto o governador e seu staff de "Rafaboys", essa elite técnica que parece viver em uma bolha de algoritmos e redes sociais, celebravam o alcance digital do evento, a realidade batia à porta do piauiense invisível. ​É vergonhoso que um estado que se orgulha de ter um "gênio da matemática" no comando não consiga resolver a equação básica da sobrevivência. ​Onde está a "inteligência" estatal na Agespisa, que sob o pretexto de uma privatização nebulosa, deixa municípios inteiros em colapso hídrico, obrigando o sertanejo a disputar água com o gado?
​Onde está a eficiência na saúde, quando o Conselho Regional de Medicina (CRM-PI) denuncia semanalmente a falta de insumos básicos e remédios para hipertensão e diabetes em unidades de saúde?

​Gastar milhões em publicidade e eventos de visibilidade internacional enquanto falta o losartana e a dipirona no posto de saúde é mais do que má gestão; é crueldade administrativa. É a política do "pão e circo", mas com o pão mofado e o circo financiado por empréstimos bilionários que as próximas gerações terão que pagar.

​A Matemática da Opacidade

​A conta apresentada não fecha, e no Piauí de Rafael Fonteles, a transparência é o primeiro item a ser sacrificado no altar do marketing. O governo diz que custou R$ 1,8 milhão. O artista diz que não recebeu do Estado. Fala-se em uma doação de R$ 1 milhão para a saúde que ninguém sabe onde caiu, em que conta entrou ou como será aplicada.

​Essa "filantropia de palco" serve apenas para confundir a fiscalização. Se o evento era privado, por que o empenho da PGE? Se era público, por que a nebulosidade sobre os valores? A verdade é que o governo usa mecanismos como a inexigibilidade de licitação e contratos estratégicos opacos para criar uma realidade paralela, onde o Piauí parece a Estônia digital na propaganda, mas continua sendo o Piauí da desigualdade estrutural na vida real.

​A Soberba dos "Rafaboys"

​O termo "Rafaboys" não é apenas um apelido; é a definição de um estilo de governar que naturalizou o uso da máquina administrativa como brinquedo político. É uma geração que se sente acima da opinião pública, que ignora críticas consistentes sobre o endividamento desenfreado do estado e que trata o patrimônio público como se fosse um ativo de uma startup particular.

​O Piauí está sendo hipotecado. São bilhões em operações de crédito que alimentam esse Piauí de fachada, enquanto os problemas crônicos, a segurança que falha, a água que não chega e a saúde que agoniza, são varridos para debaixo do tapete vermelho estendido para as celebridades.

Para concluir, ​Rafael Fonteles precisa entender que governar não é "gerar engajamento". A população não se alimenta de curtidas e não mata a sede com vídeos em alta resolução captadas por drones de última geração. A indignação que cresce nas ruas e nos interiores é fruto do cansaço de um povo que vê o seu dinheiro ser queimado em fogos de artifício, enquanto o essencial é tratado com migalhas.

​O "gênio" da matemática falhou na conta mais importante: a do respeito ao cidadão. Quando o palco se apaga e as luzes baixam, o que sobra é um Piauí endividado, sedento e indignado. E essa conta, governador, o senhor não vai conseguir resolver com propaganda, porque no final das contas, a consequência imediata e no longo prazo é para quem paga essa conta.  O povo do Piauí.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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