
O sentimento que domina hoje é de revolta. Revolta profunda diante dos rumos que a política do Piauí tomou, ou melhor, dos rumos que foi forçada a tomar por um grupo que transformou o poder público em instrumento privado.
A população, por décadas, vem sendo tratada como massa de manobra. Trabalha muito, recebe pouco, enfrenta jornadas exaustivas que beiram a escravidão moderna, tudo em nome da sobrevivência própria e de suas famílias. E, ainda assim, segue sem perspectivas reais de crescimento. Para muitos, a única saída é ir embora. Não por escolha, mas por necessidade. O resultado disso é visível: o Piauí perde sua população a uma taxa preocupante, drenando justamente aqueles que poderiam impulsionar o desenvolvimento do estado.
Enquanto isso, o poder permanece concentrado. Não de forma difusa, não de forma democrática, mas nas mãos de um número restrito de famílias. São grupos que se revezam nos mandatos, ocupam cargos estratégicos e distribuem posições entre filhos, netos e parentes próximos, atravessando Executivo, Legislativo e Judiciário. Em qualquer órgão público, o contribuinte se depara com os mesmos sobrenomes, repetidos como uma marca registrada do domínio político.
Esse modelo não é acidental. Ele é estruturado.
Durante o período eleitoral, repete-se o mesmo roteiro: medidas pontuais, ações superficiais, reforço momentâneo de segurança apenas nas áreas visíveis, benefícios temporários como abonos ou pagamentos extras. Uma encenação cuidadosamente planejada para produzir efeito imediato. Passado o período, tudo volta ao normal, ou ao abandono.
E o ciclo se fecha quando parte do eleitorado, capturado por essa lógica, reconduz os mesmos grupos ao poder.
Mas o problema vai além do voto. Existe um sistema que condiciona, pressiona e limita. O empreendedor é sufocado por impostos e por uma máquina pública que, muitas vezes, atua mais como instrumento de controle do que de apoio. Fiscalizações seletivas, burocracia excessiva e insegurança institucional criam um ambiente onde produzir se torna um ato de resistência.
O cidadão comum convive com um “sócio invisível”: um Estado que cobra, mas não entrega. Não ajuda a cavar um poço, mas taxa. Não contribui para instalar energia, mas cobra. Não apoia quem quer empreender, mas exige sua parte.
E, talvez mais grave que tudo isso, há um desgaste moral. A percepção crescente de que valores foram substituídos por conveniência. De que a política deixou de ser instrumento coletivo e passou a ser um negócio altamente lucrativo para poucos.
No Piauí, a política partidária foi capturada. Com raríssimas exceções, quem entra de fora acaba absorvido pelo sistema. A renovação é bloqueada, não por falta de nomes, mas por falta de espaço real. A opinião pública, nesse contexto, torna-se secundária, quando não irrelevante.
O resultado é um ciclo vicioso: concentração de poder, ausência de alternância, manutenção de privilégios e perpetuação do atraso.
E enquanto esse ciclo não for rompido, o estado seguirá refém de um modelo que beneficia poucos e sacrifica muitos.
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