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Brasil OPINIÃO

O famoso “golpe” e o silêncio seletivo

Entre a rapidez para punir e a hesitação para investigar, cresce a percepção de uma justiça com pesos diferentes diante de fatos que deveriam exigir o mesmo rigor institucional

12/04/2026 às 06h00
Por: Arthur Feitosa
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Imagem gerada por inteligência artificial
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Se houve, de fato, uma tentativa estruturada de ruptura institucional, seria razoável supor que órgãos como a Polícia Federal e a própria Procuradoria-Geral da República já detivessem conhecimento prévio e tivessem atuado de forma consistente, à altura da gravidade dos fatos. Caso contrário, o que se coloca em xeque não é apenas o episódio em si, mas a própria capacidade dessas instituições de cumprir suas funções essenciais. No entanto, o que se observa é a consolidação de um ambiente de crescente desconfiança. Permanece a sensação de que os eventos de 8 de janeiro, protagonizados, em grande parte, por cidadãos comuns, manifestantes insatisfeitos com os rumos políticos do país, foram tratados com celeridade exemplar, tanto nas acusações quanto nas condenações. Essa resposta rápida e rigorosa contrasta de forma evidente com a postura adotada em outros casos potencialmente mais graves.

No caso do escândalo envolvendo o Banco Master, causa estranhamento a tentativa de sustentar que autoridades da República desconheciam os fatos investigados. Não se trata de uma hipótese fantasiosa. É razoável presumir que uma investigação dessa magnitude, conduzida pela Polícia Federal, não seria levada ao Procurador-Geral da República sem elementos robustos e consistentes. Diante disso, a ausência de atuação firme da PGR não pode ser interpretada como mera inércia administrativa. A omissão, nesse contexto, adquire contornos de ação institucional ou, mais precisamente, de falta dela com consequências concretas. Quando o chefe do Ministério Público Federal deixa de agir diante de fatos que potencialmente atingem o núcleo do Estado, o silêncio deixa de ser neutro e passa a produzir efeitos profundos.

Um escândalo que atinge o coração da República

O caso não se restringe a irregularidades periféricas. Ele alcança estruturas centrais: o sistema financeiro, o Banco Central, o Congresso Nacional, a Presidência da República, o Senado Federal e até mesmo o Supremo Tribunal Federal. Trata-se, portanto, de um episódio com potencial de abalar a confiança pública na ordem econômica e institucional do país. Nada, nesse cenário, justifica a ausência de protagonismo da PGR. Ao contrário, essa postura levanta questionamentos inevitáveis: trata-se de falha institucional, cálculo político ou de compromissos que se afastam do interesse público?

O que alimenta a desconfiança

O ponto mais sensível dessa análise é a evidente disparidade de tratamento. De um lado, no 8 de janeiro, houve rapidez, rigor e forte mobilização institucional contra indivíduos majoritariamente comuns. De outro, diante de um escândalo que envolve agentes de alto escalão e estruturas estratégicas da República, prevalece a narrativa de desconhecimento e uma atuação que, até aqui, se mostra tímida ou ausente. Essa desproporção reforça a percepção de seletividade ou, no mínimo, de critérios pouco transparentes na definição de prioridades institucionais. As consequências são profundas. O que se consolida é um ambiente em que a confiança nas instituições é fragilizada, a previsibilidade da atuação estatal se torna incerta, a justiça passa a ser percebida, por parte da sociedade, não como um pilar de equilíbrio, mas como um possível instrumento de poder. Esse cenário se agrava diante de relatos de intimidação e ameaças a jornalistas no contexto das investigações, um sinal preocupante sobre o nível de pressão envolvido. Se profissionais da imprensa são ameaçados, a insegurança do cidadão comum se torna ainda mais evidente.

Um país entre narrativas e omissões

O resultado final é um país marcado por contradições institucionais. De um lado, respostas céleres e rigorosas quando se trata de determinados atores. De outro, silêncio e ausência de ação diante de casos que atingem o topo da estrutura de poder. Nada disso contribui para a estabilidade institucional. Ao contrário, amplia a sensação de que há pesos e medidas distintos na aplicação da justiça. E assim, o Brasil segue preso às suas contradições históricas: projetado como “país do futuro”, mas constantemente adiado por suas próprias inconsistências internas.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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