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Paca no prato, crise na mesa: o almoço de Páscoa que virou símbolo de desconexão

Entre a ostentação gastronômica e o silêncio oficial, cresce a pergunta que ecoa nas redes: quem explica o cardápio do primeiro casal?

06/04/2026 às 19h29
Por: Douglas Ferreira
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Janja na cozinha gourmet preparando a paca ao molho para o marido, presidente Lula da Silva - Foto: Reprodução
Janja na cozinha gourmet preparando a paca ao molho para o marido, presidente Lula da Silva - Foto: Reprodução

O Brasil amanheceu depois do último Domingo de Páscoa com uma cena curiosa, quase surreal, que mistura gastronomia exótica, política e uma dose generosa de constrangimento público. Enquanto milhões de brasileiros tentavam montar um almoço modesto para celebrar a Ressurreição de Cristo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Rosângela Lula da Silva decidiram compartilhar nas redes sociais o preparo de um prato pouco comum nas mesas do país. Uma paca ao molho.

Sim, uma paca.

Não se trata de metáfora, exagero ou figura de linguagem. Trata-se literalmente do animal silvestre conhecido na fauna brasileira e protegido pela legislação ambiental.

O vídeo, divulgado pela própria primeira-dama, mostra o presidente elogiando a refeição com entusiasmo quase gastronômico. Lula afirma que, "jamais teria comido uma paca tão saborosa". A declaração, dita com evidente satisfação, rapidamente se transformou em combustível para uma avalanche de comentários nas redes sociais.

E não demorou para que surgisse a pergunta óbvia que qualquer cidadão comum faria diante de uma situação dessas.

Pode isso?

A legislação brasileira é bastante clara quando se trata de animais silvestres. Desde a chamada Lei de Proteção à Fauna, em vigor desde 1967, a caça, captura, morte ou consumo de animais silvestres é considerada crime ambiental, salvo exceções muito específicas. Entre essas exceções estão situações envolvendo povos indígenas ou animais provenientes de criadouros devidamente autorizados por órgãos ambientais como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA.

Em tese, portanto, existe uma possibilidade legal para o consumo da carne de paca. Mas ela depende de um detalhe simples e objetivo. Documentação.

A paca é um animial silvestre protegido por lei ambiental - Foto: Reprodução

O agrônomo e ex-presidente do Ibama no Piauí, Carlos Moura Fé, foi procurado para comentar o caso. A explicação dele é direta, quase didática.

"Se a carne veio de um criadouro autorizado, o casal pode comprovar facilmente. Basta apresentar o cupom fiscal ou a documentação de origem do produto", explicou.

Simples assim.

O problema é que até agora, apesar da repercussão nacional, nenhuma comprovação foi apresentada publicamente. E o silêncio tem sido quase tão barulhento quanto o próprio vídeo.

Há ainda outro detalhe que transformou a história em motivo de debate público. O preço.

A carne de paca proveniente de criadouros legalizados é considerada uma iguaria rara no mercado gastronômico brasileiro. Dependendo da região e da disponibilidade, o quilo pode variar entre R$ 120 e R$ 300. Há estimativas que apontam valores ainda mais altos em restaurantes especializados.

Em outras palavras, não se trata exatamente de uma proteína popular.

Num país onde milhares de famílias lutam diariamente para colocar arroz e feijão na mesa, a imagem de um almoço presidencial com carne exótica acabou funcionando como símbolo de uma desconexão desconfortável.

Nas mesmas redes sociais onde o vídeo viralizou, circulavam também imagens de brasileiros formando filas para receber carcaças de peixe distribuídas em alguns Estados.

De um lado, paca marinada por dois dias com ervas e temperos finos.
Do outro, gente disputando restos de peixe.

A comparação, inevitável, ganhou vida própria.

Em qualquer democracia minimamente madura existe uma regra não escrita que orienta o comportamento público de governantes. O chamado exemplo simbólico.

Chefes de Estado costumam agir como vitrines morais de seus países. Cada gesto, cada palavra e até cada prato servido à mesa carrega significado político.

Por isso, primeiros casais costumam cultivar uma imagem cuidadosamente construída. Uma mistura de sobriedade, moderação e sensibilidade social.

No Brasil, entretanto, essa lógica parece frequentemente ignorada.

Nos últimos anos, Luiz Inácio Lula da Silva e Rosângela Lula da Silva têm protagonizado episódios que frequentemente misturam espontaneidade, improviso e controvérsia. Declarações públicas, comentários informais e aparições nas redes sociais que às vezes provocam mais perplexidade do que admiração.

O episódio da paca de Páscoa talvez seja apenas mais um capítulo dessa série.

Ou talvez seja algo mais simbólico.

Porque existe uma ironia difícil de ignorar. Parte significativa do discurso político da esquerda brasileira gira em torno da defesa radical do meio ambiente e da proteção da fauna.

Ver o presidente da República celebrar publicamente um prato feito com um animal silvestre acabou soando para muitos como um contrassenso digno de crônica política.

É como se o discurso ambiental tivesse sido servido como acompanhamento e depois discretamente jogado fora junto com os ossos do jantar.

Claro que tudo poderia ser resolvido com um gesto simples. Bastaria apresentar a nota fiscal do produto, a origem do criadouro autorizado e encerrar a polêmica. Mas enquanto essa explicação não aparece, o episódio continua a ecoar nas redes e nas rodas de conversa.

Porque no Brasil, onde a política muitas vezes parece uma mistura de drama, comédia e improviso, até um almoço de Páscoa pode virar debate nacional.

E às vezes basta um único ingrediente para transformar uma refeição doméstica em um prato cheio de controvérsia.

Confira o vídeo:

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