
Quando Ingmar Bergman dirigiu O Ovo da Serpente, deixou uma imagem poderosa: a de alguém que observa, através da casca ainda translúcida, uma criatura já formada, prestes a nascer. A metáfora é clara: os sinais estavam ali, visíveis para quem quisesse enxergar. Hoje, olhando para certos episódios no Brasil, essa imagem volta com força inquietante. Nesta semana, um bar na Lapa, no Rio de Janeiro, que se define como “antifascista” e reúne militantes ligados à União da Juventude Comunista, exibiu uma placa proibindo a entrada de cidadãos americanos e israelenses. No mesmo período, uma delicatessen (estabelecimento especializado em alimentos finos) no Leblon afirmou ter suspendido a venda de produtos da culinária judaica por posicionamento do proprietário. Ambos os casos ocorreram durante o Pessach (páscoa), uma das datas mais simbólicas da tradição judaica.
Diante disso, é difícil não reconhecer padrões que a história já registrou. Regimes autoritários não surgem de forma abrupta ou explícita. Muitas vezes, começam com gestos aparentemente pontuais: avisos, exclusões, discursos que classificam grupos como inimigos. Ao longo do século XX, especialmente no contexto que levou à Segunda Guerra Mundial, esse processo seguiu etapas conhecidas: primeiro, a identificação; depois, o isolamento; por fim, a normalização da exclusão. Não se trata de equiparar contextos distintos, mas de reconhecer mecanismos que se repetem.
Há também um fenômeno contemporâneo que merece atenção: a disputa por narrativas. Em ambientes altamente polarizados, termos como “fascismo” passam a ser usados de forma ampla, muitas vezes como ferramenta de deslegitimação do outro. O risco, nesse cenário, é transformar o debate público em um campo onde rótulos substituem argumentos, abrindo espaço para justificativas morais que sustentem atitudes discriminatórias. Quando isso acontece, perde-se a capacidade de diálogo e se fortalece a lógica de exclusão.
As respostas institucionais, como eventuais sanções administrativas ou manifestações de entidades representativas, são importantes, mas não suficientes por si só. Episódios assim não devem ser tratados apenas como casos isolados, e sim como sinais de um ambiente que exige vigilância democrática. A história mostra que pequenas concessões ao preconceito podem evoluir para crises maiores. A questão central, portanto, não é apenas reagir ao fato imediato, mas compreender o que ele revela sobre a sociedade e quais caminhos estão sendo abertos a partir dele.
A reação firme das instituições brasileiras é essencial para preservar a coerência do discurso democrático. Onde estão, neste momento, as manifestações do governo Lula, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal diante de um episódio explícito de exclusão ocorrido em um estabelecimento no Rio de Janeiro? A defesa da democracia não pode ser seletiva nem condicionada a alinhamentos políticos, sob risco de perder credibilidade perante a sociedade.
O alerta sobre riscos autoritários já foi amplamente utilizado no debate público recente, principalmente pelo Supremo Tribunal Federal, em referência ao governo de Jair Bolsonaro. No entanto, episódios concretos de discriminação exigem a mesma contundência. Se a vigilância democrática é um princípio, ela precisa ser aplicada de forma consistente. O silêncio diante de práticas excludentes não apenas enfraquece esse princípio, como também revela um desequilíbrio perigoso na forma como a própria democracia é defendida no Brasil.
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