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Internacional RICARDO ORTIZ

Entre o toureiro e o touro: quando o destino muda de lado na arena

Tragédia em Málaga relembra que, na tauromaquia, o risco não termina quando o espetáculo acaba

05/04/2026 às 19h39
Por: Douglas Ferreira
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Ricardo Ortiz tombou na praça de touros - Foto: Reprodução
Ricardo Ortiz tombou na praça de touros - Foto: Reprodução

Existe um velho ditado popular que resume bem as voltas inesperadas da vida. “Um dia é da caça e outro do caçador.” Na Espanha, terra onde a tradição das touradas atravessa séculos, a expressão ganha uma tradução quase literal. Há o dia do toureiro e há o dia do touro.

Infelizmente, desta vez foi o dia do touro.

Um episódio trágico abalou o universo da tauromaquia no sul da Espanha. O ex-toureiro Ricardo Ortiz, de 51 anos, morreu após ser violentamente atingido por um touro nos bastidores da tradicional praça de touros La Malagueta, na cidade de Málaga.

O acidente ocorreu momentos antes de um evento importante do calendário taurino local, a chamada Corrida Picassiana, uma das celebrações mais emblemáticas da temporada. A tragédia surpreendeu até profissionais acostumados a lidar diariamente com animais de enorme força e imprevisibilidade.

Ricardo Ortiz não era um novato no mundo das arenas. Pelo contrário. Seu nome era conhecido entre aficionados e profissionais da tauromaquia na região. Depois de se aposentar como toureiro, ele continuou trabalhando nos bastidores da atividade, auxiliando no manejo e preparação dos touros antes das apresentações.

Era um homem que conhecia cada gesto, cada reação e cada risco desse universo.

Ainda assim, o acidente aconteceu.

Segundo relatos preliminares, Ortiz estava nos currais da praça conduzindo uma atividade considerada rotineira no manejo dos animais quando o touro reagiu de forma inesperada. Em questão de segundos, o animal investiu com violência, atingindo o ex-toureiro com força suficiente para causar ferimentos fatais.

Em arenas taurinas, a diferença entre controle e caos pode ser tão fina quanto um fio de navalha.

A morte de Ortiz ocorreu antes mesmo de o espetáculo começar. Não houve plateia, música ou capa vermelha balançando sob aplausos. Houve apenas a brutalidade silenciosa de um animal poderoso reagindo dentro de um espaço fechado.

As autoridades espanholas tratam o episódio como possível acidente de trabalho, já que Ortiz exercia uma função profissional no momento do ataque. Investigações buscam esclarecer se houve falha de procedimento, descuido momentâneo ou simplesmente o fator mais difícil de prever em ambientes desse tipo. A imprevisibilidade de um animal criado justamente para reagir com agressividade.

No mundo das touradas, a coragem sempre foi exaltada como virtude máxima. O toureiro entra na arena consciente de que enfrenta um adversário que pesa centenas de quilos e carrega nos músculos uma força ancestral. É um duelo coreografado entre homem e natureza.

Mas mesmo longe da arena, o risco continua rondando.

A tragédia reacendeu um debate antigo na sociedade espanhola. Para defensores, a tauromaquia é patrimônio cultural, uma arte ritualística que atravessou gerações. Para críticos, trata-se de uma prática perigosa, tanto para os animais quanto para os próprios homens que participam dela.

Independentemente da posição nesse debate, a morte de Ricardo Ortiz lembra uma verdade simples e brutal. Na arena da vida, assim como nas praças de touros, o controle humano tem limites.

E às vezes, quando menos se espera, chega o dia do touro.

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