
A permanência de Rafael Fonteles no comando do Executivo estadual tende a consolidar uma nova hegemonia interna no PT. E, na política, hegemonia não se compartilha, se exerce. Wellington Dias, hoje senador e figura histórica do partido, já enfrenta dificuldades na composição da chapa majoritária de 2026. Ainda assim, esses obstáculos são pequenos quando comparados ao cenário que pode se desenhar em 2030, caso Rafael saia vitorioso e fortaleça seu grupo político.
O cálculo é simples: em 2030, Wellington encerrará seu mandato no Senado. Sua eventual renovação dependerá, inevitavelmente, do aval de quem estiver controlando a máquina política estadual. E esse controle não se limita ao exercício formal do cargo de governador, ele se estende à capacidade de articulação, formação de alianças e definição de candidaturas.
Se Rafael Fonteles conseguir não apenas a reeleição, mas também estruturar uma sucessão alinhada, como a possível indicação de Washington Bandeira para vice, projetando-o como herdeiro político, o espaço para Wellington dentro do partido tende a se estreitar drasticamente.
Esse movimento não é novo na política brasileira. Líderes que consolidam poder no Executivo frequentemente reorganizam seus grupos, priorizando quadros mais jovens e alinhados ao seu projeto, reduzindo gradualmente a influência de lideranças anteriores, mesmo que históricas.
Além disso, o contexto nacional reforça esse cenário. Wellington Dias, atualmente inserido no governo federal, mantém relevância institucional, mas sua base de poder sempre esteve fortemente ancorada no Piauí. Sem controle ou influência decisiva no estado, sua capacidade de articulação política tende a diminuir ao longo do tempo.
Por outro lado, uma eventual derrota de Rafael Fonteles em 2026 reconfiguraria completamente esse tabuleiro.
Nesse cenário, abre-se espaço para o retorno de Wellington Dias como principal liderança do PT no estado. Sua trajetória é robusta: quatro mandatos como governador, dois como senador, além de passagens pela Câmara Federal, Assembleia Legislativa e Câmara Municipal de Teresina. Trata-se de um capital político raro, construído ao longo de décadas.
Há ainda um elemento simbólico relevante: Wellington nunca sofreu uma derrota em eleições estaduais. Suas duas únicas derrotas eleitorais ocorreram em disputas pela Prefeitura de Teresina. A primeira foi em 2000, quando concorreu ao lado da vice Francisca Trindade e foi derrotado por Firmino Filho (PSDB), que venceu com 60,89% dos votos. A segunda derrota aconteceu em 2012, quando voltou a disputar a Prefeitura de Teresina, mesmo já tendo sido eleito senador em 2010, mas não conseguiu vencer o pleito.
Esse ponto dialoga com uma característica histórica da política piauiense: a capital e o interior nem sempre caminham juntos eleitoralmente.
Apesar da hegemonia do PT no governo do estado desde 2002, o partido jamais conseguiu se impor de forma consistente em Teresina. A capital foi, por anos, reduto do grupo liderado por Firmino Filho, que construiu uma base sólida e resistente à influência do Palácio de Karnak.
Teresina, aliás, tem um histórico de equilíbrio e independência política. Raramente entrega o comando da prefeitura ao mesmo grupo que governa o estado, funcionando como uma espécie de contrapeso institucional dentro do próprio Piauí.
Esse comportamento reforça a ideia de que vitórias estaduais não garantem controle absoluto do cenário político e que derrotas, por outro lado, podem reabrir caminhos antes considerados encerrados.
Assim, dentro dessa lógica de poder, a derrota de Rafael Fonteles em 2026 deixaria de ser apenas um revés eleitoral para se tornar uma oportunidade estratégica para Wellington Dias retomar protagonismo, reorganizar seu grupo e, possivelmente, pavimentar seu retorno ao centro das decisões políticas do estado.
A história recente do PT no Piauí mostra que até acordos políticos que envolvem espaços políticos no futuro, podem ser quebrados sem nenhuma cerimônia. Na política é assim. É como nuvem. Nunca está no mesmo lugar.
No fim, mais do que uma disputa entre nomes, o que está em jogo é a definição de quem comandará o futuro do PT no Piauí: a continuidade de uma nova liderança em ascensão ou o retorno de um líder que, até aqui, construiu sua trajetória sem derrotas no principal palco político do estado.
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