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Brasil CORRUPÇÃO POLICIAL

40 PMs trabalhavam para o narcotráfico no Pará; entenda

Investigação da Polícia Federal revela que agentes da segurança pública teriam sido recrutados por organização criminosa para transportar drogas e operar esquema que movimentou milhões entre Pará e Amapá.

31/03/2026 às 13h17
Por: Douglas Ferreira
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O guarda municipal Pedro de Moraes Santos Garcia - Foto: Reprodução
O guarda municipal Pedro de Moraes Santos Garcia - Foto: Reprodução

Quando o crime veste farda: o consórcio entre facção e agentes do Estado

A crença de que as facções criminosas são apenas um fenômeno social fruto da pobreza ou da desigualdade é uma explicação simplista que pouco ajuda a compreender a realidade. O crime organizado no Brasil é muito mais do que isso. Trata-se de um produto social complexo, articulado e profundamente infiltrado nas estruturas do poder. Não nasce do acaso e tampouco sobrevive apenas pela força das armas. Ele prospera sobretudo pela fragilidade, pela incompetência ou pela conivência do próprio Estado brasileiro.

A história do crime no Brasil não começou agora. Muitos estudiosos sustentam que suas raízes remontam aos primórdios da colonização, quando práticas ilícitas e estruturas de contrabando já existiam desde os tempos das caravelas de Pedro Álvares Cabral. O que mudou neste século foi a capacidade de organização dessas redes. As facções deixaram de ser grupos dispersos e passaram a operar como verdadeiras corporações clandestinas, com hierarquia, divisão de tarefas, financiamento próprio e presença territorial em praticamente todo o país.

Hoje duas grandes organizações criminosas dominam boa parte desse cenário, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Ambas extrapolaram o universo das prisões e passaram a influenciar setores da economia informal, redes de transporte, comércio de combustíveis, distribuição de gás e até serviços de internet clandestina em diferentes regiões do Brasil. Em alguns Estados, essas estruturas funcionam com eficiência empresarial, como se fossem conglomerados paralelos disputando espaço com o próprio Estado.

Esse crescimento não seria possível sem um elemento decisivo. A presença de aliados dentro da própria máquina pública. Há anos surgem denúncias sobre advogados, policiais e até parlamentares cuja formação ou campanhas eleitorais teriam sido financiadas pelo crime organizado. Investigações em diferentes Estados indicam que o fenômeno não se limita a um território específico. Ele se espalha como uma teia silenciosa que alcança diferentes esferas do poder.

No Piauí, por exemplo, uma vereadora chegou a ser presa acusada de ter o mandato financiado por integrantes da facção Bonde dos 40. Em território piauiense uma rede de postos de combustíveis foi investigada por suspeita de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital. No Ceará, autoridades já identificaram atuação do Comando Vermelho em setores comerciais como venda de gás e internet clandestina. Lá existe até uma CVnet.

Esses exemplos revelam um padrão perturbador. Facções não se limitam a controlar bocas de fumo. Elas buscam infiltrar-se nas estruturas que deveriam combatê-las. E nesse processo nenhum setor parece totalmente imune. A influência do crime já alcançado os Três Poderes da República.

O episódio mais recente vem do Estado do Pará, no Norte do País. Investigações conduzidas pela Polícia Federal indicam que pelo menos 40 policiais militares e guardas municipais podem ter sido recrutados por uma organização criminosa para atuar diretamente no tráfico de drogas. Em vez de combater o narcotráfico, esses agentes teriam passado a desempenhar funções típicas do crime, atuando como transportadores e facilitadores da logística da droga.

Segundo a apuração, o esquema operava enviando maconha e cocaína do Pará para o Amapá e outros Estados do Nordeste. A droga era transportada principalmente em balsas e escondida em sucatas ou eletrodomésticos para escapar da fiscalização. O principal articulador seria o guarda municipal Pedro de Moraes Santos Garcia, atualmente considerado foragido.

A dimensão financeira da operação impressiona. Apenas nas contas associadas ao líder do esquema teriam circulado cerca de R$ 40 milhões em três anos. O grupo também utilizava familiares e terceiros como laranjas para lavar dinheiro do tráfico. Em um dos casos investigados, um operador financeiro movimentou aproximadamente R$ 5 milhões.

O dado mais alarmante, contudo, não está apenas na cifra. Está no papel desempenhado por agentes do próprio Estado. De acordo com a investigação, alguns policiais não apenas facilitavam o transporte de drogas como também se apropriavam de carregamentos pertencentes a outras facções para revendê-los posteriormente.

O escândalo veio à tona no âmbito da Operação Abadon, que cumpre mandados judiciais em seis Estados brasileiros, incluindo Roraima, Rio Grande do Norte, Ceará e São Paulo. A investigação começou após a prisão de um integrante da facção Família do Terror do Amapá encontrado justamente na casa de um policial militar.

Esse detalhe resume a gravidade do problema. Quando o crime encontra abrigo dentro das próprias instituições responsáveis por combatê-lo, a linha que separa legalidade e ilegalidade torna-se perigosamente tênue.

A maioria esmagadora dos policiais brasileiros cumpre seu dever com coragem e honestidade. Mas episódios como o do Pará demonstram que bastam alguns agentes corrompidos para comprometer a credibilidade de todo o sistema.

A pergunta que permanece é inevitável. Até que ponto o crime organizado está infiltrado nas estruturas do poder público brasileiro?

Responder a essa questão talvez seja o maior desafio das instituições de segurança e da própria democracia. Porque quando o crime deixa de enfrentar o Estado e passa a operar dentro dele, a batalha contra a ilegalidade torna-se infinitamente mais difícil.

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