
A mais recente pesquisa AtlasIntel/Bloomberg expôs um dado politicamente explosivo para o Supremo Tribunal Federal. Segundo o levantamento, 69% dos brasileiros acreditam que a Corte tem algum nível de envolvimento no escândalo do Banco Master. O número não é apenas alto. Ele revela um terremoto de confiança institucional. Para 47% dos entrevistados, o Supremo está “totalmente envolvido” no caso. Outros 10% enxergam o tribunal “muito envolvido”, enquanto 12% o consideram “algo envolvido”. Em contraste, apenas uma pequena parcela da população acredita que a Corte não tem relação com o episódio. Em termos de percepção pública, o tribunal que deveria funcionar como a última trincheira da Constituição passou a ser visto por muitos como personagem de uma crise que deveria julgar.
A crise não surgiu do nada. Nos últimos anos, alguns ministros acabaram arrastando o próprio tribunal para o centro de disputas políticas, decisões controversas e embates públicos que normalmente deveriam ocorrer fora das paredes do Judiciário. Quando ministros entram no debate político com a intensidade de comentaristas de televisão, o resultado costuma ser previsível. A instituição começa a ser confundida com as opiniões individuais de seus integrantes. É como se o árbitro de uma partida decidisse comentar as jogadas no microfone do estádio enquanto o jogo ainda está em andamento. O problema não é apenas o comentário. O problema é a dúvida que passa a pairar sobre a imparcialidade do apito.
Nos últimos anos, decisões e declarações de figuras centrais da Corte, como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, colocaram o Supremo em uma posição de protagonismo político raramente vista em democracias consolidadas. Não se trata de discutir o mérito jurídico de cada decisão. O ponto central é a percepção pública gerada por esse protagonismo. Quando o tribunal deixa de ser visto apenas como guardião da Constituição e passa a ser percebido como ator político ativo, a confiança institucional inevitavelmente sofre erosão.
O levantamento também mostrou que a desconfiança não atinge apenas o Judiciário. O Congresso Nacional aparece como “totalmente envolvido” no caso para 45% dos entrevistados. Já o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é apontado como “totalmente envolvido” por 43%. O próprio Banco Central do Brasil também aparece no radar de desconfiança de parte da população. Em outras palavras, a crise do Banco Master acabou funcionando como uma espécie de lupa institucional. Sob essa lente ampliada, praticamente todas as estruturas do poder brasileiro aparecem sob suspeita.
Ainda assim, o impacto sobre o Supremo possui um peso simbólico maior. Diferentemente do Congresso ou do Executivo, o Judiciário não depende de popularidade para governar. Ele depende de credibilidade para julgar. É essa credibilidade que funciona como o cimento invisível da autoridade judicial. Quando a confiança pública começa a se deteriorar, decisões judiciais continuam válidas do ponto de vista formal, mas passam a enfrentar resistência no terreno da opinião pública.
Historicamente, o Supremo já enfrentou momentos de tensão política. Durante o período da redemocratização, por exemplo, a Corte foi pressionada por disputas institucionais intensas. No entanto, mesmo em episódios turbulentos da política nacional, raramente se viu um nível de desconfiança popular tão explícito direcionado diretamente ao tribunal.
A pesquisa da AtlasIntel, que ouviu mais de cinco mil brasileiros entre os dias 18 e 23 de março, com margem de erro de apenas um ponto percentual, sugere que o problema ultrapassa divergências ideológicas momentâneas. O dado indica algo mais profundo. Uma parcela significativa da sociedade passou a questionar a própria posição institucional da Corte no sistema político brasileiro.
É evidente que percepção pública não equivale automaticamente a prova concreta de envolvimento. Democracias não podem funcionar com base apenas em suspeitas ou impressões. Mas ignorar a percepção popular também não costuma ser uma estratégia sábia para instituições que dependem de legitimidade pública.
Em política e em direito constitucional existe uma regra silenciosa que raramente aparece nos livros, mas que costuma decidir o destino das instituições. Confiança se constrói lentamente, como uma catedral erguida pedra por pedra. Já a perda de credibilidade costuma ocorrer com a velocidade de um desmoronamento.
Hoje, o grande desafio do Supremo talvez não seja apenas decidir processos complexos ou interpretar a Constituição. O desafio pode ser algo mais difícil. Reconstruir a confiança de uma sociedade que, segundo a pesquisa, passou a olhar para o tribunal com um nível de desconfiança que poucas vezes se viu na história republicana recente do Brasil.
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