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Política POR ARTHUR FEITOSA

PT - Até onde pode chegar uma ideologia política?

Entre discurso e prática, quando a ideologia supera resultados e afasta soluções reais para a sociedade

25/03/2026 às 08h18
Por: Arthur Feitosa
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Imagem gerada por inteligência artificial
Imagem gerada por inteligência artificial

Durante décadas, a política mundial foi explicada através de uma divisão simplista: direita de um lado, esquerda do outro. No século XXI, entretanto, essa dicotomia parece cada vez mais anacrônica, arcaica e ultrapassada. Em um mundo globalizado, interdependente e altamente tecnológico, insistir em rótulos ideológicos rígidos muitas vezes serve mais para dividir sociedades do que para resolver problemas concretos.

Curiosamente, quanto mais atrasado é um país, mais ele parece se agarrar a essas bandeiras ideológicas como se fossem bússolas morais absolutas. O resultado costuma ser previsível: menos pragmatismo, menos eficiência administrativa e mais disputas retóricas que pouco contribuem para melhorar a vida da população.

No cenário internacional recente, um exemplo ilustrativo surgiu no combate ao narcotráfico nas Américas. Treze países formaram uma coalizão conhecida como “Escudo das Américas”, voltada ao enfrentamento coordenado de cartéis e organizações criminosas transnacionais. O Brasil, no entanto, optou por ficar de fora.

A decisão gerou perplexidade em diversos setores da segurança pública. Ao se afastar da iniciativa, o governo brasileiro preferiu alinhar-se a posições mais lenientes defendidas por alguns governos da região. Mais ainda: resistiu à proposta dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, medida que facilitaria cooperação internacional para desarticular suas redes financeiras e operacionais.

Para muitos analistas, trata-se de um exemplo claro de quando a ideologia se sobrepõe ao interesse prático da sociedade.

O combate ao crime organizado internacional exige cooperação entre países, inteligência compartilhada e atuação conjunta das forças de segurança. Submeter esse tipo de estratégia a alinhamentos políticos ou afinidades ideológicas pode custar caro à população.

Essa mesma lógica de disputa ideológica também marcou, durante anos, a política interna da maior potência econômica do planeta. Nos Estados Unidos, críticos afirmam que setores do campo progressista se deixaram influenciar por uma extensa rede de organizações e ONGs que passaram a disputar espaço dentro das instituições públicas americanas. Muitas dessas entidades acabaram atuando como instrumentos de difusão de agendas políticas financiadas com recursos públicos.

A disputa ideológica, quando deixa de ser debate e passa a ser estratégia de poder, costuma ter um efeito corrosivo: o enfraquecimento das instituições. Em vez de confrontos eleitorais baseados em projetos de desenvolvimento, cria-se um ambiente de infiltração política, aparelhamento e polarização permanente.

Mas talvez o fenômeno mais curioso esteja no comportamento recorrente de muitos líderes políticos que chegam ao poder defendendo igualdade econômica. É comum que, antes da ascensão política, apresentem-se como representantes do proletariado e críticos da concentração de riqueza. No entanto, uma vez instalados no poder, passam a ostentar estilos de vida luxuosos e incompatíveis com o discurso que os levou ao governo.

A história recente de vários países mostra um padrão semelhante: líderes que prometem igualdade acabam cercados por uma nova elite política que desfruta de privilégios, enquanto a população continua dependente de programas assistenciais.

No Brasil, esse paradoxo aparece de forma particularmente visível. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva construiu sua narrativa política em torno da defesa dos trabalhadores e da redução das desigualdades. No entanto, críticas frequentes apontam para um contraste entre o discurso e a prática. O que vemos é uma estrutura de poder centralizada, viagens internacionais numerosas, ostentando gastos e desfrutando luxos que se igualam ao modo de vida dos Xeiques Arabes,  e tudo financiado por uma máquina administrativa cada vez mais cara para o contribuinte.

Enquanto isso, para a população mais pobre, multiplicam-se programas de transferência de renda que são importantes para aliviar a pobreza imediata, mas insuficientes para romper o ciclo estrutural da dependência econômica.

Esse modelo político encontra terreno fértil especialmente em regiões historicamente mais pobres do país, como aqui no Nordeste. Aqui, a política muitas vezes se organiza em torno de lideranças duradouras e estruturas partidárias profundamente sustentadas pelo aparelho estatal.

O caso do Piauí ilustra bem esse fenômeno.

O atual governador Rafael Fonteles chegou ao poder com a promessa de modernização econômica e inovação administrativa. Antes disso, havia ocupado apenas a Secretaria da Fazenda do estado. Seus apoiadores destacam sua formação técnica e sua capacidade de articulação política.

Críticos, entretanto, questionam a ausência de uma trajetória empresarial ou administrativa fora da esfera pública que demonstrasse experiência direta na geração de riqueza e desenvolvimento econômico.

Desde o início de sua gestão, o governo tem investido fortemente em agendas internacionais carissimas e anúncios de projetos ambiciosos, como o famoso hidrogênio verde, que seria a redenção econômica do Piauí alçando o estado  imediatamente à condição de uma potência economica regional. Divulgou ainda a reintrodução de uma infraestrutura ferroviária, a instalação definitiva do tão sonhado,  cantado em verso e proza, porto marítimo de Luis Correia,  capaz de escoar nossa produção agrícola e mineral, atrair riquezas infinitas para a região, além de novos corredores logísticos.

Na prática, porém, todos esses projetos ainda permanecem no campo das promessas ou dos estudos preliminares.

Imaginemos o quanto foi gasto do dinheiro do contribuinte piauiense com essas mais de duas dezenas de viagens internacionais, que até o momento, nenhum resultado prático trouxe que possa ser visto como promissor. Resta ao governador apenas seguir prometendo o que ele próprio sabe impossível entregar.

Enquanto isso, o estado segue enfrentando as mesmas dificuldades históricas para atrair investimentos privados de grande escala e gerar empregos suficientes que possa conter o fluxo migratório de piauienses em busca de oportunidades em outras regiões do país.

Paralelamente, a máquina pública continua funcionando com grande intensidade na comunicação institucional, divulgando realizações e ampliando a presença do governo na mídia regional, muito bem paga também e semore com o dinheiro do contribuinte piauiense. Parece não haver medidas capazes que possam conter esses abusos da utilização da máquina pública para a promoção pessoal do governador.

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: até que ponto o debate político brasileiro continuará preso a rótulos ideológicos que pouco ou nada dizem sobre eficiência administrativa, crescimento econômico e melhoria real das condições de vida da população?

No final das contas, o verdadeiro desafio das sociedades modernas não é escolher entre direita ou esquerda, mas entre governos que produzem resultados e governos que apenas administram narrativas para manter o poder.

Enquanto essa distinção não se tornar clara para grande parte da população, o risco é que ciclos políticos se perpetuem não pela qualidade da gestão, mas pela força das estruturas de poder que sustentam esses grupos no comando do Estado.

E assim seguimos.

Pobre Brasil.

Pobre Piauí.

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