
Durante décadas, Israel conviveu com uma rotina que nenhum país civilizado deveria aceitar como normal. Mísseis disparados por milícias, atentados terroristas, ameaças de destruição e discursos oficiais prometendo apagar o Estado judeu do mapa. Por trás de grande parte dessa engrenagem está o regime teocrático do Irã, governado por aiatolás que tratam Israel como o chamado “pequeno satã”.
Agora a resposta israelense chegou a um novo patamar.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou que Israel passará a mirar diretamente os dirigentes do regime iraniano. Segundo ele, não serão apenas instalações militares ou bases estratégicas. A própria liderança da República Islâmica entrou oficialmente na lista de alvos.
A declaração foi feita durante visita à cidade de Arad, no sul do país, atingida por mísseis iranianos. O ataque também alcançou a cidade de Dimona, onde analistas acreditam existir parte do arsenal nuclear não declarado de Israel.
Diante dos destroços e da tensão de uma população acostumada a correr para abrigos antiaéreos, Netanyahu foi direto ao ponto. Israel irá atrás do regime. Irá atrás da Guarda Revolucionária Islâmica. E irá atacar pessoalmente seus dirigentes, suas instalações e seus ativos.
Em outras palavras, a guerra deixou de ser apenas indireta.
Durante anos, Teerã preferiu lutar por meio de procuradores. Organizações como Hamas e Hezbollah receberam financiamento, armas e treinamento iraniano para pressionar Israel a partir de Gaza e do Líbano. O cálculo era simples. Bater sem aparecer.
O problema é que Israel cansou de ser saco de pancadas regional.
Netanyahu deixou claro que considera o regime iraniano a raiz do problema. Para ele, enquanto a teocracia dos aiatolás continuar financiando milícias e prometendo destruir Israel, o conflito nunca terminará.
A radicalização da retórica não surgiu do nada. Na madrugada deste domingo, ao menos seis mísseis iranianos conseguiram atravessar o escudo antimísseis israelense e explodiram em território do país. O sofisticado sistema de defesa Iron Dome interceptou cerca de 92 por cento de mais de 400 projéteis disparados, segundo militares israelenses. Ainda assim, dezenas de pessoas ficaram feridas e um homem está em estado grave.
Quando centenas de mísseis cruzam o céu de um país, a discussão filosófica sobre moderação costuma perder força.
A pergunta inevitável é se Netanyahu está blefando ou se realmente pretende transformar a cúpula do regime iraniano em alvo militar. A história recente sugere que o líder israelense raramente faz ameaças vazias. Israel construiu ao longo das décadas uma reputação peculiar no cenário internacional. Quando identifica uma ameaça existencial, costuma agir primeiro e explicar depois.
Isso já aconteceu contra programas nucleares hostis no Oriente Médio, contra comandantes terroristas e contra líderes militares de grupos armados que descobriram tarde demais que o Mossad possui uma memória longa e uma paciência curta.
Até agora não há confirmação pública de líderes supremos iranianos mortos em ataques diretos israelenses. Mas oficiais da Guarda Revolucionária Islâmica e comandantes de milícias aliadas já foram eliminados em operações cirúrgicas ao longo dos anos, muitas vezes fora do território iraniano.
A grande questão agora é se essa guerra silenciosa vai ultrapassar definitivamente as fronteiras da clandestinidade.
Se Israel realmente começar a mirar diretamente a elite dirigente de Teerã, o conflito entrará em território inexplorado. Será o confronto aberto entre uma democracia militarizada que luta pela sobrevivência e uma teocracia revolucionária que transformou a hostilidade a Israel em política de Estado.
No meio disso tudo, há um detalhe quase irônico. Enquanto os aiatolás passam décadas prometendo destruir Israel, Israel continua existindo, inovando, prosperando e interceptando mísseis no ar.
Talvez seja justamente isso que mais incomode o regime de Teerã. A simples e persistente teimosia da existência israelense.
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