
O Brasil atravessa um momento brutal e inaceitável. Nunca se matou tantas mulheres como agora. Os números mais recentes escancaram uma realidade que já não pode ser suavizada com discursos institucionais ou campanhas pontuais. Em 2025, o país registrou 1.568 vítimas de feminicídio, o maior índice da última década. A média diária varia entre quatro e seis mulheres assassinadas simplesmente por serem mulheres.
Não se trata de estatística fria. Trata-se de um padrão crescente de violência que revela o fracasso estrutural na proteção feminina. O crescimento de 4,7% em relação a 2024 confirma uma tendência que não dá sinais de recuo. Quando se somam tentativas e mortes, o cenário se torna ainda mais alarmante. Foram 6.904 casos em 2025, com um salto de 34%. É uma escalada, não um desvio.
Desde 2015, mais de 13.700 mulheres foram assassinadas em casos classificados como feminicídio. O número por si só já seria suficiente para mobilizar uma resposta nacional urgente. Mas o que se vê é um país que reage lentamente, muitas vezes apenas depois que a tragédia já aconteceu.
Paralelamente, as agressões contra mulheres também cresceram de forma preocupante. A violência doméstica deixou de ser um problema invisível e passou a ocupar o centro da crise de segurança pública. Ainda assim, a resposta estatal permanece fragmentada, reativa e, em muitos casos, insuficiente.
É nesse contexto que surge a aprovação, no Senado Federal do Brasil, do projeto que prevê o uso imediato de tornozeleira eletrônica para agressores. A proposta avança ao permitir que delegados determinem o monitoramento em situações de risco, sem depender exclusivamente de decisão judicial. O texto segue agora para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A medida representa um passo importante, mas está longe de ser solução definitiva. O problema não é apenas a ausência de mecanismos, mas a incapacidade de fazê-los funcionar de forma eficaz e imediata. A tornozeleira pode inibir, pode monitorar, pode alertar. Mas não impede, por si só, a decisão violenta de quem já ultrapassou todos os limites.
A ampliação das penas previstas na Lei Maria da Penha também sinaliza endurecimento. Ainda assim, o Brasil já convive há anos com leis consideradas avançadas no papel e frágeis na prática. A distância entre legislação e realidade continua sendo o maior obstáculo.
A fala da senadora Leila Barros reconhece um ponto crucial. Medidas protetivas, isoladamente, não têm sido suficientes para garantir a vida das vítimas. O Estado frequentemente chega depois da violência, quando o que se exige é prevenção real, presença ativa e resposta imediata.
Há um elemento incômodo que precisa ser dito. O agressor raramente age por impulso isolado. Ele age porque acredita que pode. A cultura de impunidade, a demora nas respostas e a fragilidade da fiscalização criam o ambiente perfeito para a repetição do crime.
O novo projeto tenta corrigir parte dessa falha ao permitir ação mais rápida diante de sinais de risco. É um avanço técnico. Mas a dimensão do problema exige mais do que ajustes legais. Exige mudança de comportamento institucional, investimento contínuo e uma rede de proteção que funcione antes da tragédia, não depois.
O Brasil precisa decidir se continuará reagindo a números ou se finalmente enfrentará as causas. Porque, no ritmo atual, cada novo dado não será apenas estatística. Será mais uma vida interrompida em um país que ainda não conseguiu proteger suas próprias mulheres.
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