
O envio de ajuda humanitária do governo brasileiro a Cuba reacende um debate antigo, incômodo e cada vez mais inevitável. Até que ponto solidariedade internacional pode ser separada de conivência política. E mais. Em que momento a assistência humanitária deixa de ser um gesto nobre e passa a funcionar como oxigênio para regimes que sobrevivem justamente da escassez que produzem.
A decisão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva de enviar toneladas de alimentos e medicamentos à ilha governada por Miguel Díaz-Canel ocorre em meio ao colapso visível da economia cubana. Apagões constantes, prateleiras vazias e serviços públicos deteriorados não são mais exceções. São a regra de um sistema que, há décadas, promete igualdade, mas entrega escassez.
A lista de insumos impressiona pelo volume. São 80 toneladas de medicamentos, incluindo itens básicos de saúde, além de 20 mil toneladas de arroz, 150 toneladas de feijão e mais 200 toneladas de arroz polido. Em números absolutos, trata-se de uma operação robusta. Em termos políticos, é um gesto que vai muito além da assistência. É uma sinalização clara de alinhamento.
Não se trata da primeira remessa. O Brasil já havia enviado medicamentos recentemente, ampliando agora o alcance da ajuda. A justificativa oficial é simples. Trata-se de apoio humanitário, sem impacto no abastecimento interno. Mas a realidade internacional raramente é tão simples quanto as notas oficiais sugerem.
Cuba vive hoje uma crise estrutural que não nasceu ontem. Desde a Revolução Cubana, o país adotou um modelo centralizado que, ao longo de mais de seis décadas, corroeu sua capacidade produtiva. O resultado é um paradoxo cruel. Um país que já foi relevante economicamente na região tornou-se dependente de doações externas para alimentar sua população.
A comparação é inevitável. É como uma engrenagem que, em vez de produzir, consome a si mesma. E, quando trava, precisa que alguém de fora a mantenha girando. O problema é que esse “alguém” não alimenta apenas o povo. Alimenta também o sistema que o mantém dependente.
O regime cubano, frequentemente criticado por organizações internacionais, acumula denúncias de repressão, censura e restrição de liberdades básicas. Dissidência política, por lá, não é debate. É risco. Ainda assim, o governo brasileiro opta por reforçar laços com Havana, ignorando um histórico que, em qualquer outra geografia, seria tratado com mais cautela.
O argumento recorrente de que a crise cubana é consequência exclusiva do embargo norte-americano simplifica demais uma realidade complexa. O bloqueio tem impacto, é fato. Mas não explica sozinho décadas de estagnação, baixa produtividade e fuga de cidadãos. A crise também é interna, estrutural e, sobretudo, política.
Nesse contexto, o gesto brasileiro ganha contornos simbólicos. É como oferecer água a um paciente sem questionar a doença que o levou à sede. A ajuda chega, alivia momentaneamente, mas não altera a lógica que perpetua o problema.
Críticos do governo apontam uma contradição evidente. Enquanto defende a democracia no discurso interno, o Brasil mantém uma postura tolerante, quando não simpática, em relação a regimes autoritários no exterior. A política externa, nesse caso, parece operar com dois pesos e duas medidas.
Por outro lado, defensores da medida argumentam que negar ajuda humanitária seria punir ainda mais a população cubana. É um ponto legítimo. Mas que não elimina a pergunta central. Quem, de fato, se fortalece com essa ajuda. O povo ou o regime?
No fim, a decisão do governo Lula escancara uma escolha política. Não é apenas sobre enviar alimentos ou remédios. É sobre para onde o Brasil olha quando decide agir no cenário internacional.
E, mais uma vez, a pergunta que permanece é simples, mas incômoda. O Brasil está ajudando Cuba a sair da crise ou ajudando o regime a continuar dentro dela?
BRASIL Brasil - A engrenagem da escassez: como o poder se alimenta da miséria
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