
Em 2003, durante férias com a família e amigos em Genebra, vivi uma pequena experiência que, à primeira vista, parecia trivial, mas que acabou se transformando numa poderosa lição sobre o que realmente sustenta uma sociedade civilizada.
Naquele ano, conheci pela primeira vez um tipo de iogurte de origem grega, famoso pela consistência cremosa, quase semelhante a um sorvete. Era novidade para mim. Assim como também ainda era novidade no Brasil o uso disseminado do cartão de débito, que dispensava o uso de dinheiro em espécie.
Entrei em um pequeno empório para comprar o tal iogurte. Peguei o produto na gôndola refrigerada e me dirigi ao caixa. Com meu inglês já enferrujado pela falta de prática, estendi uma cédula de dez euros à atendente.
Ela olhou para mim e disse, educadamente:
— Senhor, neste empório não aceitamos pagamento em dinheiro. Apenas cartão de débito ou crédito.
Antes que eu pudesse procurar o cartão, a jovem, percebendo meu constrangimento, completou com um sorriso:
— Imagino que o senhor seja estrangeiro e esteja visitando nossa cidade. Pode levar o iogurte e, quando estiver com seu cartão, tenho certeza de que voltará para pagar. Não perca a oportunidade de experimentar.
Aquilo me desconcertou. Eu, brasileiro médio, acostumado desde cedo a ouvir que é preciso desconfiar de todos, que sempre existe alguém tentando levar vantagem, que honestidade é quase ingenuidade. Acabei pagando com cartão de crédito e saí dali refletindo sobre algo que, naquele momento, começou a ficar muito claro para mim.
O que sustenta uma sociedade saudável é uma palavra simples: cidadania.
Cidadania significa instituições confiáveis. Significa respeito ao dinheiro público. Significa intolerância com a corrupção. Sem isso, não há prosperidade duradoura.
Recentemente, uma pesquisa do Datafolha trouxe um dado que deveria provocar um profundo constrangimento nacional. Apenas 9% dos brasileiros dizem estar preocupados com a corrupção. Segundo o levantamento, 21% apontam a saúde como principal preocupação, enquanto 19% mencionam a segurança pública. Ambos são problemas gravíssimos. Ninguém discute isso.
Mas o que muitos parecem incapazes de perceber é que a corrupção é justamente a raiz de grande parte desses problemas. O dinheiro que falta nos hospitais públicos é o dinheiro desviado pela corrupção. O dinheiro que falta para equipar as forças de segurança é o dinheiro drenado pelos esquemas de propina.
O cidadão que espera meses por um exame no SUS muitas vezes é vítima indireta de um sistema que viu bilhões de reais desaparecerem em contratos fraudados. No Brasil, não é raro que um paciente morra antes de conseguir atendimento especializado. Ao mesmo tempo, bilhões circulam em esquemas de corrupção envolvendo estatais, fundos públicos e contratos governamentais.
A história recente do país é marcada por escândalos sucessivos.
O Escândalo do Mensalão levou importantes dirigentes partidários à prisão e resultou na cassação de mandatos parlamentares. Pouco tempo depois veio a gigantesca investigação da Operação Lava Jato, que revelou um cartel de empreiteiras operando dentro da Petrobras para desviar bilhões de reais. Executivos, empresários e políticos foram condenados. O esquema envolvia financiamento político ilegal, contratos superfaturados e pagamento sistemático de propinas.
Nesse contexto, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a ser condenado em três instâncias da Justiça Federal e cumpriu pena na sede da Polícia Federal em Curitiba. Posteriormente, suas condenações foram anuladas por questões processuais relacionadas à competência da vara julgadora.
Juridicamente, Lula recuperou seus direitos políticos e voltou à Presidência da República. Mas politicamente, a história jamais deixou de provocar controvérsia na sociedade brasileira. Para uma parcela significativa da população, essa reviravolta jurídica tornou ainda mais confuso o entendimento público sobre corrupção e responsabilidade política.
Moralmente, para muitos brasileiros, essa sequência de fatos acabou contribuindo para um fenômeno perigoso: a banalização da corrupção como problema central do país.
O novo escândalo e o silêncio das instituições
Agora, um novo escândalo volta a sacudir Brasília: o caso envolvendo o Banco Master e figuras de altíssimo calão das instâncias superiores do Judiciário brasileiro, do Poder Executivo e do Poder Legislativo.
O episódio, amplamente noticiado pela imprensa e alvo de investigações da Polícia Federal, levanta suspeitas graves sobre a atuação de figuras relevantes dos três poderes da República.
Para muitos analistas e observadores da cena política, o que se desenha é algo ainda mais perturbador: uma espécie de pacto de autoproteção institucional. Um cartel político-institucional. Um sistema em que autoridades de diferentes poderes parecem agir, direta ou indiretamente, para evitar que determinadas investigações avancem até as últimas consequências.
Se essa percepção estiver correta, trata-se de algo devastador para a República.
Porque a essência de uma democracia é justamente o controle recíproco entre os poderes. Quando Executivo, Legislativo e partes do Judiciário parecem caminhar na mesma direção para se proteger mutuamente, o sistema deixa de fiscalizar a si próprio.
E passa a se blindar.
Nesse contexto surge uma pergunta inevitável: onde está a Procuradoria-Geral da República?
A Procuradoria-Geral da República tem, entre suas funções constitucionais, justamente a defesa da ordem jurídica e dos interesses da sociedade. É a instituição que deveria agir quando há suspeitas graves envolvendo autoridades da República.
Mas o que se percebe, para muitos observadores, é um silêncio ensurdecedor.
Por que a PGR não assume protagonismo nesse caso?
Por que não conduz investigações amplas quando há suspeitas que atingem figuras centrais do poder?
Por que parece assistir a tudo à distância?
No meio desse cenário de perplexidade institucional, uma figura tem chamado atenção: o ministro André Mendonça.
Ministro relator responsável pela condução de procedimentos relacionados às investigações do caso, Mendonça tem permitido o avanço das apurações e dado respaldo judicial ao trabalho da Polícia Federal. Em um ambiente institucional frequentemente acusado de interferências e paralisações seletivas de investigações, essa postura tem sido vista por muitos como um sinal de independência.
A Polícia Federal do Brasil, que em diferentes momentos da história recente foi alvo de tentativas de contenção política, volta a desempenhar seu papel essencial de investigação. Mas talvez o maior problema não esteja apenas nas instituições. Ele pode estar na própria sociedade.
Quando apenas 9% da população considera a corrupção uma preocupação relevante, algo profundamente errado está acontecendo na consciência coletiva do país. Uma sociedade que se acostuma com a corrupção começa lentamente a aceitá-la como normal. Ela deixa de ser vista como escândalo. Passa a ser método de governo.
Diante disso, resta uma pergunta que deveria inquietar qualquer brasileiro:
Que tipo de nação pode surgir quando a corrupção deixa de indignar a maioria da população?
Porque nenhum país construiu prosperidade duradoura tolerando o saque sistemático de seus próprios recursos públicos. Sem cidadania, não há Estado forte. Sem instituições respeitadas, não há democracia sólida.
E principalmente: sem indignação popular, a corrupção sempre vencerá.
Talvez tenha chegado a hora de a própria sociedade reagir. Isso começa com atitudes simples, mas poderosas: exigir transparência, cobrar posicionamentos de parlamentares, valorizar instituições de controle, apoiar investigações independentes, punir eleitoralmente políticos envolvidos em escândalos e ensinar às novas gerações que corrupção não é esperteza, é roubo coletivo. Nenhuma reforma institucional será suficiente enquanto a sociedade continuar tolerando aquilo que deveria provocar indignação permanente.
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