
O Brasil vive hoje uma das fases mais confusas e perigosas de sua vida institucional. O que vemos não é apenas crise política. É um processo gradual de erosão da autoridade das instituições, alimentado pela omissão de quem deveria ser o principal fiscal do poder: o Congresso Nacional.
Deputados e senadores não foram eleitos apenas para aprovar leis ou negociar cargos. A função essencial do Parlamento é vigiar os outros poderes, limitar abusos e proteger a sociedade. Quando o Congresso se omite, todo o sistema republicano começa a falhar.
E é exatamente essa sensação que domina grande parte da população brasileira hoje.
A pergunta que muitos cidadãos fazem é simples: onde está o Congresso Nacional quando o país enfrenta crises institucionais sucessivas?
O atual presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, assim como outras lideranças do Legislativo, deveria estar à frente de um Parlamento vigilante e atuante. No entanto, o que se observa frequentemente é um presidente que barra sistematicamente qualquer tentativa de investigação. Congresso acomodado, amedrontado, engavetando projetos da maioria dos parlamentares como contrapartida da defesa de interesses supostamente escusos de parte a parte. É um protegendo o interesse imediato do outro.
Enquanto isso, o Brasil convive há décadas com escândalos que revelam um padrão preocupante de captura do Estado. O país assistiu, estarrecido, ao escândalo do Mensalão, revelado em 2005, que expôs um sistema de pagamento de propinas a parlamentares em troca de apoio político no Congresso. A investigação levou à condenação de figuras importantes da política nacional, como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, todos ligados ao núcleo dirigente do Partido dos Trabalhadores à época.
Antes disso, outro episódio já havia abalado a confiança nas instituições: o escândalo dos Correios, que revelou esquemas de corrupção envolvendo contratos públicos e que acabou desencadeando as investigações que culminariam no Mensalão. Nos anos seguintes, o país enfrentaria um escândalo ainda maior.
A Operação Lava Jato revelou o gigantesco esquema de corrupção que ficou conhecido como Petrolão. Bilhões de reais foram desviados da Petrobras por meio de contratos fraudados, envolvendo empreiteiras, operadores financeiros e políticos de diversos partidos. Executivos de grandes empresas e figuras políticas influentes foram investigados, denunciados e, em muitos casos, condenados. Entre os nomes que passaram pelo sistema judicial está o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado por três instâncias da Justiça Federal, preso cumprindo sua pena no presídio de Curitiba até sua condenação ser posteriormente anulada por decisões do Supremo Tribunal Federal baseadas em questões processuais relacionadas à competência da vara responsável pelos julgamentos.
Esse episódio alimentou um debate intenso no país sobre segurança jurídica, revisão de condenações e os limites das decisões judiciais.
Outro capítulo frequentemente citado por analistas são os escândalos envolvendo fundos de pensão de estatais, como os casos investigados na Operação Greenfield. Fundos bilionários ligados a empresas como Petrobras, Banco do Brasil e Correios foram alvo de suspeitas de má gestão e investimentos temerários que provocaram prejuízos gigantescos para milhares de trabalhadores. Somados, esses episódios criaram uma percepção devastadora na sociedade: a de que o sistema político brasileiro opera muitas vezes distante do interesse público. Paralelamente, o Brasil passou a viver um clima crescente de tensão entre os poderes da República.
O Supremo Tribunal Federal assumiu, em vários momentos, um papel central em decisões que impactam diretamente a vida política do país. Para alguns analistas, isso representa uma atuação necessária para preservar a Constituição. Para outros, revela um processo de judicialização excessiva da política, no qual questões que deveriam ser resolvidas pelo Legislativo acabam sendo decididas pelo Judiciário. Esse cenário alimenta um debate legítimo sobre os limites institucionais de cada poder e sobre a necessidade de preservar o equilíbrio previsto pela Constituição.
O problema central, no entanto, continua sendo a fragilidade do Congresso. Quando o Parlamento deixa de exercer plenamente sua função fiscalizadora, o sistema perde seu principal mecanismo de equilíbrio. E quem paga a conta é sempre o cidadão comum. O trabalhador que paga impostos altíssimos.O empresário sufocado por burocracia e insegurança jurídica.
O jovem que vê cada vez menos oportunidades no próprio país. Diante desse quadro, a responsabilidade final recai inevitavelmente sobre o eleitor. A democracia oferece ao povo um instrumento poderoso: o voto. Mas o voto só tem força quando é usado com consciência. Se o eleitor continuar escolhendo seus representantes com base apenas em propaganda, emoção ou promessas vazias, o Brasil continuará preso ao mesmo ciclo de escândalos, crises e frustrações.
As eleições de 2026 poderão ser um divisor de águas. O país precisa decidir se continuará elegendo políticos comprometidos com projetos de poder ou se finalmente escolherá representantes dispostos a defender os interesses reais da sociedade brasileira. Porque uma verdade precisa ser dita com clareza: nenhum país resiste por muito tempo quando suas instituições deixam de servir ao povo e passam a servir apenas a si mesmas.
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