
A morte de Ali Khamenei não significaria, automaticamente, o colapso da República Islâmica. Regimes teocráticos não funcionam como monarquias personalistas puras, eles possuem engrenagens institucionais desenhadas justamente para sobreviver à perda do líder máximo.
O novo capítulo dessa escalada veio com o ataque israelense ao edifício da Assembleia dos Peritos, órgão responsável por eleger o sucessor do líder supremo. Segundo a mídia israelense, os 88 aiatolás que compõem a assembleia estariam reunidos no local em Teerã no momento do ataque.
Até o momento, não há confirmação independente sobre quantos estavam de fato presentes, tampouco há dados oficiais sobre mortos ou feridos entre os membros do colegiado. O número oficial da Assembleia é conhecido, 88 integrantes, todos clérigos de alto escalão eleitos formalmente para mandatos de oito anos.
Sem confirmação de baixas entre os aiatolás, qualquer afirmação categórica sobre “eliminação total” é, no mínimo, prematura.
A Assembleia dos Peritos é a única instituição com autoridade constitucional para nomear, supervisionar e até destituir o líder supremo. Em tese, é o pilar da continuidade do regime.
Atacar seu edifício tem peso simbólico e político enorme. Não é apenas um alvo militar, é um alvo institucional. É atingir o mecanismo de sucessão.
Mas destruir um prédio não equivale necessariamente a eliminar a estrutura decisória. Os membros podem ser realocados, reunir-se em outro local ou operar sob esquema emergencial.
Regimes autoritários costumam prever cenários de guerra.
Formalmente, não.
Com a morte de Khamenei, a Constituição iraniana prevê um conselho de transição, formado por um clérigo indicado, o presidente da República e o chefe do Judiciário. O nome anunciado para liderança interina foi o aiatolá Alireza Arafi, ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e do chefe do Judiciário.
Isso significa que há comando provisório.
A pergunta relevante não é se há vazio formal, mas se há fragmentação real de poder.
Se houver confirmação de mortes significativas entre os 88 membros da Assembleia, o impacto seria profundo:
Atraso na escolha do novo líder supremo.
Disputa interna entre facções clericais e militares.
Ampliação do protagonismo da Guarda Revolucionária.
O vácuo de autoridade em regimes teocráticos tende a ser preenchido por estruturas armadas, não por forças democráticas espontâneas.
Por outro lado, se a maioria dos membros sobreviveu, o regime pode usar o ataque como catalisador de coesão interna, mobilizando discurso de resistência contra “agressão externa”.
Em conflitos assim, bombardeios muitas vezes fortalecem narrativas nacionalistas.
Militarmente, Israel vem demonstrando capacidade de atingir alvos estratégicos no coração de Teerã, incluindo complexos de comunicação e centros de comando.
Politicamente, o enfraquecimento depende de três fatores:
Capacidade do regime de manter unidade interna.
Postura da Guarda Revolucionária.
Reação da população iraniana.
Até agora, não há sinais públicos de ruptura institucional aberta. O regime iraniano já enfrentou crises severas antes e sobreviveu.
Cortar a cabeça da serpente é uma metáfora poderosa. Mas, no caso iraniano, o corpo possui múltiplos centros nervosos.
Possível, sim. Provável, ainda incerto.
Regimes ideológicos entram em colapso quando três elementos se combinam, divisão interna, perda de controle coercitivo e erosão total de legitimidade.
O ataque à Assembleia dos Peritos pressiona o primeiro elemento, a coesão interna. Mas não há confirmação de que tenha desarticulado completamente a estrutura clerical.
Além disso, a Guarda Revolucionária Islâmica é hoje uma das instituições mais poderosas do país, com influência econômica e militar robusta. Mesmo com eventual desorganização clerical, o aparato militar pode sustentar o sistema.
O ataque ao órgão responsável por escolher o novo líder supremo é um movimento estratégico claro, atingir o mecanismo de sucessão para ampliar a instabilidade.
Mas afirmar que o regime está acéfalo ou prestes a ruir exige mais evidências.
Teocracias são resilientes quando controlam armas, narrativa e burocracia. O Irã ainda controla os três.
O que está em curso não é apenas eliminação de lideranças, é uma tentativa de desarticular a arquitetura institucional do regime.
Se isso levará à queda da República Islâmica ou à sua radicalização ainda maior, dependerá menos das bombas e mais da dinâmica interna do poder em Teerã nos próximos dias.
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