
Existe uma regra antiga na política que nunca falha: a soberba é o atalho mais curto para a derrota. Quem se acha invencível começa a perder no exato momento em que deixa de ouvir. E o Piauí já assistiu a esse filme antes.
Em 1994, não havia reeleição. O então governador Guilherme Melo concluía o mandato iniciado por Freitas Neto, que se afastara para disputar o Senado ao lado de Hugo Napoleão. Freitas reorganizara um estado que encontrara combalido. Para sucedê-lo, o bloco político que vencera as eleições de1990 resolveu lançar o nome do então secretário de Educação, Átila Lira, preparado, estruturado, praticamente dado como vencedor. Mas política não é matemática. É sentimento. É percepção. É humildade.
O então ex-prefeito de Parnaíba, Mão Santa, buscou espaço na chapa governista. Foi subestimado. Ridicularizado. A famosa frase ecoou como sentença de desprezo:
“Só é conhecido de Parnaíba até Piripiri.”
A frase que pretendia encerrar uma candidatura, acabou inaugurando uma vitória. Humilhado, Mão Santa encontrou abrigo no PMDB, que não tinha nada a perder. E quando a elite política lhe fechou as portas, o povo lhe abriu outras portas através das urnas. Resultado: o “irrelevante” venceu.
A política ensina sem piedade: quem desdenha do adversário costuma aprender com ele.
2026: o criador contra a criatura
Hoje, o cenário estadual revive tensões que lembram aquele passado. A disputa não é apenas contra a oposição. É interna. É por hegemonia. É por controle. É uma verdadeira briga de foice nos bastidores do PT. De um lado, o ex-governador e atual ministro Wellington Dias. Do outro lado, o governador Rafael Fonteles.
Não se trata apenas de reeleição. Trata-se de sobrevivência política. Se Rafael consolida o comando absoluto do partido, Wellington corre o risco de ver sua influência esvaziada e seu futuro incerto. Se Wellington impõe sua liderança interna, Rafael dificilmente aceitará ser figura secundária no próprio governo. É o clássico embate entre quem construiu a máquina e quem agora deseja comandá-la sem tutelas.
Wellington sempre cultivou uma imagem de político conciliador. Pode-se discordar de suas posições ideológicas, mas poucos o acusam de arrogância pessoal. Sua habilidade sempre foi o diálogo, o sorriso fácil, o trato respeitoso. Já Rafael carrega fama diferente: técnico, cerebral, eficiente, porém frequentemente percebido como distante e altivo quando confrontado. Há quem diga que o governador é extremamente arrogante. Na política popular, isso pesa. Porque o povo pode tolerar erro. Mas raramente tolera desprezo.
O risco do salto alto
Quando líderes começam a agir como se o resultado já estivesse garantido, o alerta vermelho deveria acender.
A história mostra que o eleitor das classes trabalhadoras, o pedreiro, a professora, o pequeno comerciante, o motorista de aplicativo, não vota apenas com a razão. Vota com o sentimento de respeito e inclina-se a tomar como defesa seu voto no que entende está sendo vítima dessa arrogância.
Se sentir que está sendo ignorado, responde. E responde forte. A disputa interna no PT não é apenas uma questão partidária. Ela pode abrir fissuras perigosas. Divisões mal resolvidas costumam custar caro nas urnas. Porque enquanto os aliados brigam, a oposição caminha.
A oposição que não descansa
O senador Ciro Nogueira mantém presença constante no interior. Toda semana se noticia sua presença em vários municípios do estado. Ao seu lado, uma figura cada vez mais lembrada: Joel Rodrigues, que por muito pouco não derrotou o então super favorito Wellington Dias.
Nos bastidores, cresce a narrativa de que Joel representa o extremo oposto do atual governador: mais próximo, mais acessível, mais popular no trato.
Há também o nome de Margarete Coelho, com trajetória respeitada e trânsito amplo em todas as correntes políticas. Nada está definido. E em política, vazio nunca fica vazio por muito tempo.
A política do Piauí já provou que arrogância não ganha eleição. Ganha manchete, mesmo em veículos de comunicação pagos com dinheiro do contribuinte, costuma ganhar ilusão. Mas não ganha voto.
O povo pode até silenciar durante anos. Mas a urna nunca é silenciosa. Quando chega a hora, ela fala. E fala alto.
A briga de foice no PT pode até definir lideranças internas. Mas quem decide o futuro do estado continua sendo o eleitor comum, aquele que acorda cedo, enfrenta ônibus lotado, luta para pagar as contas e não suporta ser tratado como figurante.
No fim das contas, a lição de 1994 continua viva: na política, quem sobe demais no salto alto costuma tropeçar na própria soberba. E quando isso acontece, não adianta reclamar da queda.
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