
Não foi uma fatalidade. Foi um aviso ignorado.
A morte brutal de um paciente dentro do Hospital Areolino de Abreu, na zona Norte de Teresina, não pode ser tratada como um episódio isolado, um infortúnio estatístico ou um desvio imprevisível. Quando um homem é morto dentro de uma instituição pública de saúde mental, asfixiado e queimado em um banheiro, não estamos diante de um acidente. Estamos diante de um sistema que falhou. E falhou em cadeia.
O que aconteceu no Areolino está mais para uma tragédia anunciada do que para um acaso. Um hospital que deveria ser espaço de cuidado se transformou em território de vulnerabilidade. Um local criado para tratar mentes fragilizadas opera como um organismo lobotomizado, sem reflexos, sem coordenação, sem respostas.
O próprio Conselho Regional de Medicina do Piauí foi categórico: o hospital não oferece condições de funcionamento. A inspeção constatou obras paradas há anos, execução de apenas 25% da reforma prevista, ausência de enfermeiros no plantão noturno, número insuficiente de médicos, inexistência de segurança armada. Em outras palavras, um barril de pólvora institucional.
Atualmente, 150 pacientes ocupam a unidade, 30 deles oriundos do sistema prisional. Pessoas em extrema vulnerabilidade convivendo em um ambiente que o próprio órgão fiscalizador considera inadequado. Se o hospital não tem estrutura para receber pacientes, por que continua recebendo? Quem autorizou? Com base em que laudo técnico? Em que critério administrativo?
O Areolino de Abreu virou uma ilha cercada por problemas por todos os lados. Falta estrutura física. Falta pessoal. Falta segurança. Falta planejamento. Falta prioridade. E quando tudo falta, o que sobra é o risco.
O presidente do CRM, João Moura Fé, foi claro ao afirmar que a unidade não tem condições de receber pacientes, sejam do sistema prisional, de internação provisória ou compulsória. O Conselho vai notificar a Secretaria de Saúde. Mas a pergunta que ecoa é outra: precisava morrer alguém para que isso fosse dito com essa contundência?
A Secretaria de Estado da Saúde informou, em nota, que respeita a atuação do Conselho e aguarda o relatório oficial para conhecer as medidas elencadas. A resposta é protocolar, burocrática, fria. Fala em transparência, legalidade e qualidade. Mas não fala da morte. Não fala da estrutura deteriorada. Não fala das obras paradas. Não fala da ausência de profissionais no turno da noite. Não fala do risco.
O que levou o Areolino a essa condição? Foi falta de recursos? Foi má gestão? Foi descaso histórico com a saúde mental? Foi a transferência de responsabilidades entre ministérios, como apontado no debate sobre a política antimanicomial? Ou foi simplesmente a escolha política de não priorizar aquilo que não gera dividendos eleitorais?
Quem será responsabilizado?
O secretário de Saúde? O governador? O Estado? Ou, como quase sempre acontece, a culpa será diluída até desaparecer no vazio da burocracia?
Não é a primeira morte. E, se nada mudar de forma concreta e imediata, dificilmente será a última. Um hospital psiquiátrico não pode funcionar como um depósito humano. Não pode ser um prédio inacabado sustentado por improvisos. Não pode operar sem segurança adequada e sem equipe suficiente. Isso não é política pública, é abandono institucional.
A morte dentro do Areolino não expõe apenas uma falha operacional. Ela revela uma fratura ética. Revela o quanto a saúde mental ainda ocupa o último degrau das prioridades públicas.
Agora, as perguntas precisam ser respondidas com ações, não com notas oficiais.
Quais medidas emergenciais serão adotadas?
As obras serão retomadas com prazo e orçamento definidos?
Haverá reforço imediato de profissionais e segurança?
O hospital deixará de receber pacientes até que tenha condições mínimas de funcionamento?
Ou a morte será absorvida como mais um número em um relatório?
O Areolino de Abreu não pode continuar sendo um hospital que adoece mais do que trata. A sociedade precisa decidir se aceita que seus pacientes mais vulneráveis sejam deixados à própria sorte, ou se exige que o Estado cumpra, de fato, sua responsabilidade.
Porque quando um hospital deixa de proteger, ele deixa de ser hospital. E quando o poder público naturaliza isso, a tragédia deixa de ser exceção e passa a ser método.
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